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Víbora-de-Seoane (Vipera seoanei)

A víbora-de-Seoane é a serpente mais ameaçada de Portugal, ocorrendo apenas o esxtremo Noroeste do país. É uma espécie venenosa, no entanto ataca apenas se for perturbada, pois a primeira opção é sempre a fuga. 

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Víbora-de-Seoane adulta.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Reptilia
Ordem: Squamata
Família: Viperidae
Género: Vipera
Espécie: Vipera seoanei

Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Em Perigo” (EN), pois a espécie tem uma distribuição muito reduzida. Apresenta fragmentação elevada e, como se não fosse suficiente, a qualidade do habitat e o número de indivíduos têm diminuído. Mundialmente está classificado como “Puco Preocupante” (LC).
A víbora-de-Seoane ocorre no extremo Norte da Península Ibérica, desde o litoral Oeste de Espanha até aos Pirenéus Franceses. Em Portugal ocorre numa área extremamente reduzida, em núcleos no Noroeste, nomeadamente nas Serras de Castro Laboreiro, Soajo, Tourém, Larouco e Montalegre (pode ver o mapa de distribuição aqui).
Habita preferencialmente zonas de lameiros, prados e matos rodeados por muros de pedra, com cobertura arbustiva baixa, mais ou menos densa, na proximidade de cursos de água. Pode ainda ocorrer em zonas de floresta.
É uma espécie diurna, mas pode apresentar atividade crepuscular ou noturna durante os meses mais quentes do ano. Tal como grande parte dos restantes répteis hiberna, desde finais de outubro-novembro até fevereiro-março, período que pode variar de acordo com as condições climáticas de cada ano e com a altitude. Tem vários predadores naturais, dos quais se destacam a águia-de-asa-redonda (Buteo buteo), a raposa (Vulpes vulpes), a lontra (Lutra lutra) e o gato-bravo (Felis silvestris). Quando ameaçada opta sempre pela fuga, no entanto quando não o consegue fazer opta por um comportamento agressivo e pode chegar a morder.
É uma espécie venenosa solenoglifa, o que significa que os dentes inoculadores estão situados na região anterior do maxilar. O seu veneno, tal como o da víbora-cornuda (Vipera latastei), não é muito forte comparado com o de outras víboras, mas deve-se ter especial preocupação com crianças, idosos e indivíduos alérgicos ao veneno. É importante salientar que estes animais só mordem se se sentirem apertados ou se alguém os tentar apanhar, pois a primeira opção é sempre a fuga e, por isso, desaparecem mesmo antes de os vermos.
Pode sobreviver até aos 13 anos de idade.
Em Portugal ocorre a subespécie nominal (V. s. seoanei).
Alimentação: apresenta uma dieta muito variada, na qual se incluem micromamíferos, répteis, anfíbios e aves (passeriformes).

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Víbora-de-Seoane adulta.

Identificação
Comprimento: entre 45-50 cm.
A víbora-de-Seoane é uma víbora de pequeno tamanho, com corpo robusto, cauda curta e cabeça triangular bem diferenciada do tronco. O dorso está coberto por escamas carenadas e as placas cefálicas são fragmentadas. A pupila é vertical e a íris é dourada ou avermelhada. O dorso é cinzento, castanho claro ou bege, com uma banda vertebral mais escura e de largura variável, à qual se juntam umas manchas escuras, que podem ser opostas ou alternadas, formando bandas transversais ou um zigue-zague respetivamente. Na parte posterior da cabeça é comum existirem duas manchas escuras que formam um “V” invertido e nos flancos surgem frequentemente manchas arredondadas, também escuras. O ventre é negro ou acinzentado, com manchas esbranquiçadas. Alguns indivíduos são todos pretos.
As fêmeas atingem um tamanho ligeiramente superior ao dos machos, que normalmente apresentam cores e desenhos mais contrastados.
Esta espécie pode ser confundida com a víbora-cornuda, mas distingue-se por apresentar o focinho menos proeminente e a cabeça menos triangular.

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Diferença no focinho entre a Víbora-de-Seoane (esquerda) e a víbora cornuda (direita).

Reprodução
Existem duas épocas de reprodução e os acasalamentos ocorrem nos meses de abril e maio e entre agosto e outubro. O número de crias por ninhada depende do tamanho da fêmea, variando entre 3 e 10 crias. A maturidade sexual é alcançada aos 3 ou 4 anos de idade, quando atinge cerca de 30 a 40 cm de comprimento.

Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Almeida., N.F., Almeida, P.F., Gonçalves, H., Sequeira, F., and Almeida, J.T.F.F. (2001). Guia FAPAS Anfíbios e Répteis de Portugal. (FAPAS, Porto)
Godinho, R., Teixeira, J., Rebelo, R., Segurado, P., Loureiro, A., Álvares, F., Gomes, N., Cardoso, P., Camilo-Alves, C., and Brito, J. (1999) Atlas of the continental Portuguese herpetofauna: an assemblage of published and new data. Rev. Esp. Herp. 13:61-82
http://naturlink.sapo.pt/Lazer/Turismo-na-Natureza/content/Picadas-e-mordeduras-de-animais/section/5?bl=1&viewall=true#Go_5 http://www.iucnredlist.org/details/61594/0

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Borboletas: Evolução, Biologia e importância

As borboletas têm conquistado a nossa admiração com a sua beleza ao longo de séculos, sendo atualmente o grupo de insetos mais popular. Estas desempenham um papel importantíssimo nos ecossistemas, bem como nas nossas vidas e são uma ferramenta útil em estudos de qualidade ambiental.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Vanessa-dos-cardos (Vanessa cardui)

Evolução das borboletas
As borboletas diurnas e noturnas formam um grupo de insetos pertencente à Ordem Lepidoptera, muito diversificado, com cerca de 165 000 espécies identificadas em todo o mundo e cerca de 5 000 na Europa. Este número é apenas superado pela Ordem Coleoptera, grupo no qual se incluem os escaravelhos.
Do ponto de vista evolutivo, sabe-se que as borboletas são um grupo relativamente recente, mas ainda restam algumas dúvidas sobre o seu ancestral, uma vez que o registo fóssil a que temos acesso é indiscutivelmente insuficiente para formar uma ideia mais clara. Atualmente pensa-se que os lepidópteros partilharam um ancestral comum com os tricópteros (Trichoptera), à cerca de 250 milhões de anos (Ma.), durante o Pérmico. Foram encontrados fósseis, datados do Triássico, em que a forma se assemelha a uma mariposa, mas não se sabe se correspondiam a mariposas primitivas ou a tricópteros. Apenas em estratos do Cretácico Inferior (120 Ma.) é que se começa a observar indiscutivelmente a uma grande diversidade de mariposas primitivas. As borboletas diurnas terão aparecido também no Cretácico e no Oligocénico (40 Ma.) já existiam as principais famílias, morfologicamente semelhantes às borboletas atuais.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Exemplar de uma borboleta noturna (traça)

Biologia das borboletas
Estes insetos distinguem-se dos restantes por possuírem asas membranosas compostas por pequenas escamas coloridas e por passarem por metamorfoses completas. Outra característica importante é a presença de uma probóscide, uma tromba com a função de sugar o néctar das flores e água do orvalho.
Apesar de algumas espécies serem mais sensíveis e mais exigentes relativamente às condições do habitat do que outras, as borboletas podem ser encontradas praticamente em todos os ecossistemas portugueses. Claro que quanto mais saudável for o ecossistema, ou seja, aquele que apresenta menores vestígios da atividade humana, maior será a possibilidade de estabelecimento de colónias numerosas, de uma maior variedade de espécies. Uma característica interessante é que certas espécies podem ter habitats diferentes ao longo da sua vida: há espécies que habitam enquanto lagarta em zonas onde abundam as plantas de que se alimentam, mas quando adultas procuram outros locais, onde as suas flores preferidas existem em quantidade suficiente para sobreviverem. Posteriormente voltam ao local de origem para depositarem os ovos.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Duas lagartas de borboleta.

A migração não está presente apenas nas aves e nos mamíferos, as borboletas também o fazem, de forma a evitarem condições adversas à sua sobrevivência. Em Portugal há várias borboletas que que realizam estes movimentos: Colias croceus, Vanessa atalanta, Vanessa cardui e Libythea celtis.
A metamorfose completa é uma característica particular das borboletas, que engloba 4 estádios de desenvolvimento: ovo, lagarta, crisálida e inseto adulto. Ao contrário de muitos outros animais, os estados imaturos apresentam uma morfologia e comportamento bem distintos do estado adulto, por exemplo, o regime alimentar é muito diferente entre larvas e adultos. Em algumas espécies, os machos possuem territórios, os quais defendem durante o período de reprodução; noutras os machos possuem comportamento gregário.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Acasalamento entre duas borboletas pertencentes à espécie Plebejus argus.

Porque são importantes?
As borboletas têm um papel crucial nos ecossistemas, desempenhando funções essenciais para que estes se mantenham saudáveis. Tal como as abelhas, são importantes na reprodução de muitas plantas (são insetos polinizadores), existindo inclusivamente flores que são exclusivamente polinizadas por borboletas. Para além disso, as borboletas são a base de muitas cadeias tróficas, servindo de alimento para aves, morcegos e outros animais insetívoros.
Tendo em conta todas estas características e sabendo que têm um ciclo de vida curto e, portanto muitas gerações em pouco tempo, as borboletas permitem uma rápida acumulação de informações da sua biologia e da sua evolução, sendo ideais para o estudo da dinâmica de populações. Certas espécies dependem exclusivamente de uma única planta ou de condições ambientais muito particulares, tornando-as muito sensíveis a alterações do seu ambiente. São, por isso, consideradas espécies indicadoras da qualidade ambiental e da qualidade dos próprios ecossistemas. Assim, os lepidópteros são muitas vezes utilizados em estudos de biologia da conservação.
Apesar da importância para o ambiente e para ciência, este grupo de insetos acaba por ter um impacto direto nas nossas vidas. Normalmente as pessoas gostam de ver borboletas nos seus jardins, assim como há pessoas que percorrem longas distâncias a pé para as observar, contribuindo de alguma forma para uma vida mais saudável. Para além disto, as borboletas também possibilitam economias mas ricas, uma vez que polinizam muitas das plantas que nos servem de alimento e são protagonistas em várias Eco-tours por todo o mundo.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Lycaena alciphron

Referências
Maravalhas, E. (2003). As Borboletas de Portugal. Ernestino Maravalhas
http://naturlink.sapo.pt/Natureza-e-Ambiente/Fauna-e-Flora/content/Origem-e-Evolucao-das-Borboletas?bl=1
http://naturlink.sapo.pt/Natureza-e-Ambiente/Agricultura-e-Floresta/content/Monitorizacao-de-borboletas-diurnas-e-a-gestao-sustentavel-dos-montados-de-sobro-um-estudo-na-Serra-do-Caldeirao?bl=1&viewall=true
http://butterfly-conservation.org/45/why-butterflies-matter.html

Evolução: novas espécies, evidências e importância (Parte II)

No artigo anterior foi dada uma perspetiva histórica de como surgiu a teoria da evolução e como ocorria este processo a partir da seleção natural. Nesta segunda parte é explicado como surgem as novas espécies, enumeradas as evidências a favor da evolução e o porquê da importância em entender os processos evolutivos.

Como se formam novas espécies
Todas as espécies do planeta, quer sejam bactérias, mamíferos, aves, etc., partilham um ancestral comum numa dada altura da história da vida. Por exemplo, o ancestral comum do Homem e do periquito (Fig. 2), que viveu há cerca de 310 milhões de anos, dividiu-se em duas espécies distintas, seguindo cada uma caminhos diferentes. Não sabemos ao certo qual era o aspeto deste animal, mas não estaremos muito longe da verdade se imaginarmos um animal parecido com um lagarto, de corpo espalmado. Quando a espécie se dividiu em duas subpopulações, estas seriam idênticas e podiam reproduzir-se entre si e gerar descendentes férteis. No entanto, estas duas subpopulações não podiam gerar espécies diferentes se os seus indivíduos continuassem a cruzar-se entre si, pois os dois pools de genes acabariam por se misturar, impossibilitando a divergência.

Figura 1 – Árvore filogenética simplificada dos mamíferos, répteis e aves. O ancestral comum do Homem e periquito situa-se no circulo amarelo.

Não se sabe exatamente como esta bifurcação aconteceu, mas podemos dizer com confiança que as duas subpopulações ficaram de alguma forma isoladas reprodutivamente. Este isolamento é conseguido por barreiras geográficas, como, por exemplo, o surgimento de uma montanha que separa duas populações, ou o aparecimento de um rio. Assim, as duas populações tiveram que ficar separadas uma da outra o tempo suficiente para que quando se voltassem a juntar (caso acontecesse), tivessem divergido tanto que já não conseguiriam cruzar-se, ou se o fizessem não gerariam descendência fértil. Podemos questionar: quanto tempo é suficiente para que isto aconteça? Bem, se as populações estiveram sujeitas a pressões seletivas fortes e contrastantes, pode ter sido uma questão de alguns séculos, ou até menos. Por exemplo, uma das populações pode ter passado de carnívora a frugívora porque os frutos seriam o alimento mais abundante e a outra de carnívora a insetívora porque os insetos abundavam. Assim, podemos assumir que o isolamento reprodutor é determinante na formação de novas espécies.
Mesmo que as condições (pressões seletivas) de ambos os lados da barreira sejam idênticas, dois pools de genes da mesma espécie separados geograficamente acabam por divergir um do outro, até deixar de ser possível a reprodução entre os dois. Isto é conseguido pela acumulação aleatória de variações nos dois pools de genes, processo que é conhecido como deriva genética. Neste caso, ao contrário do anterior, a seleção natural não entra em cena de uma forma tão pronunciada, sendo um processo mais lento e menos comum.

Provas a favor da evolução
A evolução é um processo lento e gradual, que geralmente não pode ser presenciado durante o tempo de uma vida humana. Isto fez com que muitas pessoas, na maior parte dos casos encorajadas pela religião, rejeitassem um facto tão real como o heliocentrismo. Porque falo em facto? Diria que já temos provas suficientes para o fazer e, por isso, segue um resumo das evidências que suportam a teoria da evolução por seleção natural:

Paleontologia: o registo fóssil (Fig. 2) mostra informação detalhada ao longo do tempo das mudanças nos seres vivos. O processo evolutivo das baleias é um dos mais bem documentados, havendo registos fósseis de várias fases desse desenvolvimento.

Figura 2 [Foto retirada de: http://www.freeimages.com/photo/1332688%5D – Exemplar de um peixe fossilizado.

Anatomia comparada: é o estudo da comparação de estruturas (ex. esqueletos) entre espécies diferentes. Ao camparmos a estrutura óssea dos membros anteriores do morcego e do Homem, vemos que existe uma enorme semelhança, embora tenham funções completamente opostas. Apenas a partilha de um ancestral comum entres estas duas espécies explicará esta similaridade.

Biogeografia: é o estudo da distribuição das espécies de acordo com espaço geográfico e com o tempo geológico. Podemos supor que se a evolução for verdadeira deveríamos encontrar grupos de organismos relacionados em regiões geográficas também próximas. Isto é comprovado quando se comparam as distribuições de organismos atuais ou dos que viveram no passado, uma vez que as espécies estão distribuídas pelo planeta Terra segundo um padrão que reflete as suas relações genéticas.

Embriologia comparativa: esta deverá ser a evidência a favor da evolução mais esclarecedora. Ao compararmos um embrião humano, de uma ave e de um peixe podemos ver que ao longo do seu desenvolvimento, principalmente nas fases iniciais, apresentam muitas similaridades que sugerem um ancestral comum.

Bioquímica: os processos bioquímicos que ocorrem dentro das células são incrivelmente parecidos entre todos os seres vivos, mostrando que todos os organismos terrestres têm uma ancestralidade comum.

Biologia molecular: todos os organismos conhecidos até hoje têm como base funcional o DNA. Para além disso, quando se compara sequências genéticas de diferentes espécies, por muito distantes que sejam, encontra-se sempre alguma similaridade entre algumas sequências. Quanto mais aparentadas forem duas espécies mais similaridades vão partilhar no seu código genético, do que com qualquer outra mais afastada.

Datação radiométrica: permite uma medição absoluta da idade de fósseis ou rochas a partir da proporção de isótopos presentes na amostra. Esta técnica permitiu calcular a idade da Terra, cerca de 4,5 mil milhões de anos, idade que mostra ser suficiente para a formação de vida, para a sua evolução e para originar todas as formas de vida atuais (e as que se já existiram). Esta datação precisa permitiu também ver que existe uma sucessão evolutiva nos fósseis: como seria esperado dentro de um certo grupo, o fóssil mais antigo é menos parecido com o mais recente, mas à medida que se analisam fósseis mais recentes as similaridades vão aumentando progressivamente.

Entender a evolução é importante
Perceber a evolução ajuda a resolver muitos dos problemas que têm impacto na nossa vida, principalmente ao nível da medicina, da conservação da natureza e da agricultura.
Para nos mantermos um passo à frente de muitas das doenças, é necessário perceber os processos evolutivos dessa doença e/ou dos organismos que a causam. Um bom exemplo são as doenças hereditárias em pessoas, em que os investigadores estudam a história evolutiva da doença, de forma a entender como pode ser combatida/controlada.
O entendimento dos processos evolutivos também é crucial na conservação das espécies, uma vez que as condições ambientais e, por isso, os próprios hábitos dos seres vivos estão em constante mudança. Com as alterações climáticas é importante saber como a distribuição das espécies irá evoluir e como os seus hábitos alimentares se vão modificando. Ignorando a teoria evolutiva poderíamos afirmar que enquanto houver indivíduos reprodutores de uma espécie apenas precisaríamos de alguns para iniciar uma nova população, mas segundo a teoria da evolução a história é outra. Populações muito pequenas enfrentam dois perigos: depressão por endogamia e baixa variabilidade genética, o que pode impossibilitar a recuperação dessa população, apesar dos maiores esforços para a preservar.
Na agricultura tem-se verificado alguns problemas ao longo da história humana. Muitas das pragas evoluem quando expostas a pesticidas, tornando-se resistentes a estes químicos. Por isso, é importante perceber como isto acontece e tentar encontrar alternativas.

Atualmente existem cerca de 8,7 milhões de espécies no nosso planeta e estima-se que 99% de todas as espécies que já existiram estejam extintas. Toda esta variedade foi fruto de um único ancestral comum e foi a partir desta espécie que se formaram todas as adaptações que vemos nos fósseis e nos organismos atuais.
Para aprofundar mais este tema, recomendo vivamente estes dois livros: “A evidência da evolução: Porque é que Darwin tinha razão” de Jerry A. Coyne e “O Espectáculo da Vida. A Prova da Evolução” de Richard Dawkins.

Referências
Dawkins, R. (2009). O Espectáculo da Vida. A Prova da Evolução. Versão Portuguesa. Casa das Letras
Coyne, J.A. (2012). A Evidência da Evolução. Versão Portuguesa: Porque é que Darwin tinha razão. Tinta da China
http://www.dummies.com/how-to/content/what-evidence-supports-the-theory-of-evolution.html
http://evolution.berkeley.edu/evolibrary/article/medicine_06

Morcego-de-ferradura-grande (Rhinolophus ferrumequinum)

O morcego-de-ferradura-grande (Rhinolophus ferrumequinum) é o maior morcego-de-ferradura existente na Europa. Está classificado com o estatuto “Vulnerável” em Portugal e, por isso, é urgente que se tomem medidas para a sua proteção. 

[© Francisco Amorim, todos os direitos reservados] – Adulto de morcego-de-ferradura-grande.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Chiroptera
Família: Rhinolophidae
Género: Rhinolophus
Espécie: Rhinolophus ferrumequinum

Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Vulnerável” (VU), a espécie tem uma população pequena (inferior a 10.000 indivíduos maturos) e admite-se um declínio contínuo do número de indivíduos, assim como da qualidade do habitat. À escala global está classificado como “Pouco Preocupante” (LC) pela IUCN.
O morcego-de-ferradura-grande é uma espécie que ocorre sobretudo na Eurásia temperada de forma mais ou menos contínua, desde a Península Ibérica até ao Japão, e no Norte de África. Em Portugal é claramente mais comum no Norte e Centro, encontrando-se esporadicamente no Algarve (ver mapa de distribuição aqui).
É uma espécie ubiquista que parece utilizar qualquer meio, mas prefere zonas densamente florestadas com zonas de pastagens e com disponibilidade de água. Também pode ser encontrada em áreas calcárias e em locais habitados pelo Homem.
Abriga-se tradicionalmente em grutas, nas quais se reproduz, embora também possa utilizar os telhados de celeiros, igrejas e sótãos. Durante os meses mais frios, hiberna no fundo de poços, minas, grutas e estruturas humanas, onde as temperaturas não são inferiores a 7-10°C.
Este morcego é sedentário e noturno, fazendo apenas pequenas deslocações para se alimentar (cerca de 8 km) e deslocações dos locais de descanso de inverno para os de verão (geralmente entre 20 e 30 km, mas o máximo registado foi de 180 km).
Normalmente, o morcego-de-ferradura-grande sai do abrigo 50 minutos depois do pôr-do-sol para se alimentar pela noite fora, descansando por vezes próximo do local de alimentação. Hiberna de setembro/outubro a abril, interrompendo esta inatividade 2 a 3 vezes por mês para se alimentar, caso as condições atmosféricas sejam favoráveis.
Muitas vezes caça a partir de um poleiro para uma melhor localização das presas, que se forem grandes demais, depois de as caçar, volta para o local de partida para se alimentar. Bebe durante voos baixos enquanto paira.
Emite sons relativamente agudos, que podem ser fortes chilreios vindos das colónias de verão. Ecolocação a 80-83 kHz.
Alimentação: a sua dieta é constituída essencialmente por grandes insetos, como borboletas noturnas e coleópteros.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Adulto de morcego-de-ferradura-grande em

Morfologia Externa e Identificação
Comprimento: entre 9,2 – 11,4 cm.
Envergadura: entre 29,0 – 35,5 cm.
Peso: entre 14,0 – 34,0 g.
O morcego-de-ferradura-grande, apesar de ter tamanho médio, é o maior morcego-de-ferradura da Europa. O dorso é castanho-arruivado e as partes inferiores são mais claras, desde cinzento-esbranquiçado a amarelo esbranquiçado. Além destas características deve-se ter em atenção a folha nasal para uma correta identificação e distinção de outras espécies parecidas. Tal como as restantes espécies pertencentes ao género Rhinolophus, o morcego-de-ferradura-grande tem o nariz em forma de ferradura, distinguindo-se das demais pela lanceta larga que termina numa ponta saliente, pelo processo conectivo superior curto e arredondado e pelo processo conectivo inferior pontiagudo de perfil. A forma romba e tamanho do processo conectivo superior torna inconfundível esta espécie.
Não existe dimorfismo sexual aparente e os juvenis diferem dos adultos por possuírem o dorso mais acinzentado.
Deixa como indícios de presença, principalmente na primavera e verão, restos de insetos e excrementos debaixo de poleiros nas árvores ou nas entradas dos locais de descanso. Os voos são lentos e agitados, com planagens curtas, geralmente a baixa altura (0,3 – 6 m).

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Pormenor da folha nasal.

Reprodução
As cópulas acontecem normalmente no final de setembro, momento em que os espermatozoides são armazenados no oviduto e útero da fêmea até à ovulação e fertilização em março/abril. Os nascimentos ocorrem desde meados de junho até ao início de agosto, dependendo do local. As fêmeas prenhas, acompanhadas de alguns indivíduos imaturos e não reprodutores de ambos os sexos, formam colónias de criação, que podem conter várias centenas de animais. Os machos adultos vivem em pequenos grupos isolados.
A maturidade sexual é particularmente tardia, nas fêmeas é atingida no terceiro ou quarto ano de idade e nos machos a partir do segundo ano. As fêmeas podem não criar todos os anos, mas quando o fazem têm apenas um ninhada por ano constituída por uma cria.

Nota importante: As populações de morcego-de-ferradura-grande têm diminuído drasticamente ao longo dos anos fruto de enumeras atividades ligadas ao ser humano, tais como: destruição e perturbação de abrigos, destruição de florestas autóctones, poluição, perseguição direta, etc. O facto de esta espécie produzir apenas uma ninhada com uma cria por ano, atingir a maturidade sexual tardiamente (os indivíduos podem morrer antes de se reproduzirem) e serem suscetíveis a temperaturas baixas, dificulta ainda mais a sua conservação.

Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Macdonald, D., and Barret P. (1993). Guias Fapas, Mamíferos de Portugal e Europa. Fapas, Porto.
Rainho, A. (2013) – Atlas dos Morcegos de Portugal Continental. Lisboa: Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.
http://morceguismos.blogspot.pt/
http://umdiadecampo.blogspot.pt/2013/12/chave-dicotomica-simplificada-de.html
http://www.icnf.pt/portal/naturaclas/rn2000/resource/rn-plan-set/mamif/rhi-ferrumequinum
http://www.icnf.pt/portal/naturaclas/rn2000/resource/rn-plan-set/mamif/rhi-ferrumequinum

Anfíbios – às portas da extinção

Os anfíbios são um grupo de animais muito antigo, com raízes na colonização do ambiente terrestre por parte dos vertebrados (Devónico Médio, há cerca de 400 milhões de anos). São também, entre estes os que atualmente se encontram mais ameaçados e em rápido declínio.

Figura 1 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Sapo-comum (Bufo bufo).

Até ao momento já foram descritas cerca de 7387 espécies (http://amphibiaweb.org, 02 de fevereiro de 2015) divididas em três ordens: Gymnophiona (desprovidos de patas e cauda); Caudata (corpo esguio, cabeça e tronco diferenciados e cauda bem desenvolvida) e Anura (tronco encurtado e não apresentam cauda no estado adulto).
A Península Ibérica é um dos locais da Europa com maior diversidade de anfíbios, distinguindo-se pela existência de várias espécies endémicas. As razões desta região conter uma herpetofauna tão particular residem no facto de estar relativamente bem isolada, apresentar uma grande heterogeneidade fisiográfica e ter servido de refúgio a muitas espécies animais e vegetais na última glaciação. Em Portugal, existem 17 espécies de anfíbios das quais 5 são endémicas da Península Ibérica (quase 30% das espécies são endemismos).
Este grupo de animais tem uma importância gigantesca nos ecossistemas em que se inserem, mantendo o seu equilíbrio. Grande parte das espécies são predadoras e controlam as populações de invertebrados, mas também servem de alimento a muitos outros seres vivos.
A destruição e fragmentação de habitat, doenças inoficiosas, poluição, alterações climáticas e introdução de espécies exóticas são alguns dos fatores que ameaçam os anfíbios por todo o planeta. Muitas populações diminuíram mesmo em áreas intactas, o que mostra que estes animais são extremamente sensíveis a qualquer tipo de atividade humana, mesmo que sejam a muitos quilómetros de distância.

Problemas enfrentados pelos anfíbios
Doenças
Certas doenças como a quitridiomicose e a ranavirose têm reduzido de uma forma alarmante as populações e até possivelmente extinguido várias espécies por todo o planeta.
A quitridiomicose é uma doença infeciosa provocada pelo fungo cítrico, Batrachochytrium dendrobatidis, que infecta a pele dos anfíbios. Nos indivíduos afetados, a pele torna-se impermeável a eletrólitos como o sódio e o potássio, dificultado a sua passagem. Este desequilíbrio está normalmente associado a potenciais paragens cardíacas em humanos, verificando-se o mesmo desfecho nestes animais. Para agravar o problema, sabe-se que a prevalência da doença é extremamente alta fora do seu local de origem e raramente os indivíduos afetados sobrevivem.
Em 1938 no continente africano foi descoberto na espécie Xenopus laevis o primeiro caso conhecido, sendo a doença endémica desta região. Com o comércio de anfíbios a quitridiomicose tem-se espalhado por todos os continentes, exceto Antártida, e é sabido ter um carácter patogénico para pelo menos 508 espécies. O surto mais grave da doença ocorreu na América Neotropical, uma vez que 110 espécies de Atelopus spp. extinguiram-se (67%) e notou-se um rápido e acentuado declínio da diversidade em 8 famílias de sapos e salamandras em El Cope, Panama.
Na Europa o fungo distribui-se por uma vasta e irregular área e já foi encontrado em várias espécies.
Este problema também já se fez sentir em Portugal. O exemplo mais problemático ocorreu no Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) em Agosto de 2009, em que centenas de sapos-parteiro (Alytes obstetricans) foram encontrados mortos.
A ranavirose é uma doença provocada por vírus pertencentes ao género Ranavirus e normalmente afeta os anfíbios durante estado larvar. Esta doença de carácter epidémico está associada a mortalidades extremamente altas e é responsável por reduções populacionais por todo Mundo, incluindo Europa tal como já aconteceu no Reino Unido.

Figura 2 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Tritão-de-ventre-laranja (Lissotriton boscai).

Alterações climáticas
Desde a formação do planeta Terra que o clima tem sofrido sucessivas alterações. Atualmente o problema prende-se com o facto de, no último século, o ritmo entre estas variações climáticas ter sofrido uma forte aceleração e a tendência é que tome proporções ainda mais caóticas se não forem tomadas medidas. Esta súbita mudança climatérica impede que os organismos se adaptem às novas condições, resultando na extinção em massa das espécies.
O equilíbrio natural entre a disponibilidade de água e a temperatura são as condições abióticas mais importantes para o fitness e dinâmica das populações de anfíbios. O regime das águas tem, em particular, um papel vital na determinação dos padrões fenológicos da atividade reprodutora, na determinação da distribuição das populações e na prestação de locais com boas condições para reprodução. Uma alteração dos padrões da precipitação e períodos anormalmente longos de secas podem resultar numa diminuição dos locais de reprodução, com um consequente aumento dos níveis de competição e predação. Pode resultar ainda num aumento da vulnerabilidade a doenças.
Uma antecipação da época das chuvas, em ambientes com níveis de sazonalidade elevados, normalmente incentiva os anfíbios a reproduzirem-se mais cedo, resultando numa dissecação dos ovos nos períodos secos que logo se sucedem.
Os impactes das alterações climáticas nos sistemas ecológicos são observados a todos os níveis, desde a nível populacional, a mudanças na distribuição geográfica, culminando na extinção de espécies e rompimento da estrutura e funcionalidade dos ecossistemas.

Figura 3 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Rã-ibérica (Rana iberica)

Alteração do habitat
A alteração direta dos sistemas ecológicos é uma das principais causas da perda de biodiversidade a nível global. Em adição à destruição completa do habitat, há outras mudanças subtis que podem ter consequências particulares para os anfíbios.
Em primeiro lugar, a fragmentação de habitat pode ter impactes importantes sobre características demográficas da população, através de processos de distribuição regional e de metapopulação (a probabilidade de uma população local se extinguir aumenta com a distância entre populações). A rutura de mecanismos de dispersão podem ainda criar alguma redundância ao nível do código genético das populações mais isoladas.
Em segunda análise, a má gestão de áreas florestais muitas vezes leva a uma alteração microclimática, a alterações na humidade do solo e na complexidade do habitat.

Colheita/comércio ilegal
O Mundo está a lidar com uma percentagem sem precedentes de comércio ilegal de animais silvestres, ameaçando reverter décadas de trabalho em conservação. Esta atividade é um grande negócio, sendo comparável ao tráfico de armas e de droga, movimentando milhões de euros.
Os anfíbios são comercializados para a alimentação, como animais de estimação e para medicinas tradicionais. Este negócio ilegal é responsável pelo declínio de várias espécies de anfíbios e muitas têm sido recolhidas em grande número durante séculos. Como resultado, o comércio de animais selvagens é proibido e regulado pela Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora (CITES).
Apesar de toda esta regulamentação, ainda se traficam anfíbios e espécies em perigo de extinção geram especial interesse devido à sua raridade. O tráfico de anfíbios representa uma amaça para, pelo menos, 281 espécies e 153 (54%) destas espécies estão classificadas com o estatuto “Vulnerável”, “Em Perigo”, ou “Criticamente em Perigo”.
Nalguns países da Europa é comum as pernas de rã fazerem parte da gastronomia tradicional. Um exemplo é o caso da espécie Rana escuelenta, que é explorada de uma forma insustentável para a alimentação.

Figura 4 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Rã-verde (Pelophylax perezi).

Contaminação ambiental e espécies exóticas
Certos contaminantes aumentam o período larvar e tornam os juvenis mais suscetíveis à predação e à secagem do charco em que habitam. Assim, se diferentes espécies são sensíveis de forma distinta a poluentes, a abundância relativa das espécies vai ser alterada, rompendo-se o equilíbrio da competitividade e da predação entre espécies, com o consequente declínio das mais sensíveis.
A exposição a contaminantes desregula o sistema endócrino, que pode resultar num mau desenvolvimento (por exemplo, más formações corporais e alteração metabólica) e impossibilita o indivíduo de se reproduzir.
Outro grande problema é a introdução de espécies num dado sistema, que aí nunca pertenceram. Algumas das espécies introduzidas pelo Homem conseguem rapidamente adaptarem-se aos novos ambientes e produzir descendência. Esta fácil adaptação resulta, muitas vezes, na eliminação completa das espécies nativas através da competição por exclusão. As espécies invasoras não só diminuem as populações dentro de uma comunidade, como também podem levá-las à extinção, este é um fator modificador de todo um ecossistema em equilíbrio.
Alguns peixes carnívoros introduzidos nos rios portugueses revelaram-se autenticas pragas para as espécies nativas de anfíbios, pois predam os ovos, as larvas e até os adultos. O mesmo acontece com o lagostim-vermelho-da-Louisiana (Procambarus clarckii), que foi introduzido em meados do século XX em Portugal e já se distribui por todo o território.

Cabe-nos a nós reverter esta situação, uma vez que somos os responsáveis por este declínio assustador nas populações de anfíbios. Este é um problema sério que pode culminar numa desregulação dos ecossistemas, afetando também o ser humano. Desta forma, uma gestão e conservação consciencializada a nível mundial são cruciais para garantir a sustentabilidade dos sistemas biológicos.

Referências
http://naturlink.sapo.pt
http://worldwildlife.org
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Carpenter, Dublin, H., Lau, M., G. Syed, McKay, J., & Moore, R. (2005). Chapter 5. Over-harvesting. Pp. 26-31 In: Gascon, C., Collins, J.P., Moore, R.D., Church, D.R., Mackay, J.E., Mendelson, J., (eds.), Amphibian Conservation Action Plan. IUCN/SSC Amphibian Conservation Summit 2005. IUCN, Gland, Switzerland
Daszak, P., Lips, K., Alford, R., Carey, C., Collins, J., Cunningham, A., Harris, R., & S. Ron. (2005). Chapter 4. Infectious diseases. Pp. 21-25 In: Gascon, C., Collins, J.P., Moore, R.D., Church, D.R., Mackay, J.E., Mendelson, J., (eds.), Amphibian Conservation Action Plan. IUCN/SSC Amphibian Conservation Summit 2005. IUCN, Gland, Switzerland
Gardner, T. (2001). Declining amphibian populations: a global phenomenon in conservation biology. Animal Biodiversity and Conservation 1578-665X 24 (2) : 25 – 44
Mooney, H., & Cleland, E. (2001). The evolutionary impact of invasive species. PNAS 98 (10) : 5446 – 5451
Pounds, A., Carnaval, A., & Corn, S. (2005). Chapter 3. Climate Change, Biodiversity Loss, and Amphibian Declines. Pp. 19-20 In: Gascon, C., Collins, J.P., Moore, R.D., Church, D.R., Mackay, J.E., Mendelson, J., (eds.), Amphibian Conservation Action Plan. IUCN/SSC Amphibian Conservation Summit 2005. IUCN, Gland, Switzerland
Rosa, G., Anza, I., Moreira, P., Conde, J., Martins, F., Fisher, M. & Bosch, J. (2012). Evidence of chytrid-mediated population declines in common midwife toad in Serra da Estrela, Portugal. Anim. Conserv. 1367-9430 (16) : 306 – 315
Schlaepfer, M., Hoover, C., & kenneth Dodd, C. (2005). Challenges in Evaluating the Impact of the Trade in Amphibians and Reptiles on Wild Populations. BioScience 55 (3) : 256 – 264
Trenton, W., Garner, Walker, S., Bosch, J., Hyatt, A., Cunningham, A., & Fisher, M. (2005). Chytrid Fungus in Europe. Emerg Infect Dis. 11 (10) : 1639 – 1641
Vargas, J. M., Real, R. & Guerrero. J. C. (1998). Biogeogt-aphical regions of the Iberian peninsula based on freshwater fish and amphibian distributions. Bcographv (21) : 371 – 382
Weldon, C., Preez, L., Hyatt, A., Muller, R., & Speare, R. (2004). Origin of the Amphibian Chytrid Fungus. Emerg Infect Dis. 10 (12) : 2100 – 2105

Pica-pau-malhado-grande (Dendrocopos major)

O chamamento áspero ou o tamborilar do Pica-pau-malhado-grande (Dendrocopos major) são geralmente os primeiros sinais da sua presença. É o pica-pau mais comum em Portugal e pode ser observado em variados tipos de florestas e até mesmo em parques urbanos e jardins.

[© Jiri Bohdal, todos os direitos reservados] – Pica-pau fêmea adulto a transportar comida para as crias.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Piciformes
Família: Picidae
Género: Dendrocopos
Espécie: Dendrocopos major
 
Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Pouco preocupante” (LC). Mundialmente está classificado com o mesmo estatuto, uma vez que esta espécie tem uma distribuição extremamente ampla e o tamanho da sua população mundial é bastante grande.
Está presente em toda a Europa e no centro do continente asiático (incluindo a China e Japão). Também ocorre na Turquia e no Irão. Distribui-se por todo o território português, mas está ausente em áreas pouco florestadas, como por exemplo as planícies centrais do Baixo Alentejo (pode ver o mapa de distribuição aqui).
O pica-pau-malhado-grande é uma ave típica de habitats florestais e em Portugal ocorre em quase todos os tipos de florestas, embora seja menos abundante em eucaliptais, acaciais e em povoamento jovens de coníferas. Prefere zonas densamente arborizadas, mas pode ocorrer em matagais com árvores dispersas. Ocorre principalmente em, montados, pinhais adultos (de pinheiro-bravo (Pinus pinaster) e de pinheiro-de-casquinha (Pinus sylvestris)) carvalhais e certas matas ripícolas. De uma forma geral parece ser mais numeroso em matas de folhosas do que em pinhais.
É uma espécie residente e sedentária na Península Ibérica, no entanto, pode realizar pequenos movimentos erráticos. Nas áreas mais setentrionais e orientais são migradores eruptivos de curta distância. Tem principalmente hábitos diurnos.
Na Península Ibérica ocorre a subespécie D. m. hispanus.
Alimentação: a sua dieta baseia-se quase exclusivamente em insetos, mas também alimenta-se de sementes (ex. pinhões) principalmente durante o inverno. Ocasionalmente preda ovos e crias de outras aves.

Morfologia Externa e Identificação
Comprimento: entre 23-26 – 26 cm.
Envergadura: entre 38 – 44 cm.
O pica-pau-malhado-grande é facilmente identificado por apresentar a zona da cloaca e do ventre vermelho intenso, nitidamente demarcado do abdómen esbranquiçado. As “costas” são pretas contrastando com uma mancha oval branca em cada um dos ombros. O mesmo acontece nas asas que também são pretas com barras brancas. Na cabeça nota-se uma máscara branca, um “bigode” preto e uma coroa preta nos adultos e vermelha nos juvenis.
Os machos na parte posterior da coroa apresentam uma mancha vermelha, enquanto que as fêmeas apenas apresentam a coroa preta sem vermelho.
As aves do Oeste e Sul têm geralmente as partes inferiores e fronte branco-acastanhadas (mais escuras que os indivíduos das outras regiões) e bico ligeiramente mais fino.
À semelhança dos restantes pica-paus o voo é distintamente ondulado. Está sempre alerta e é uma ave cautelosa, fugindo à mínima perturbação, no entanto, no inverno pode frequentar comedouros para aves.
Apesar de ser uma ave discreta é detetado com relativa facilidade graças às suas vocalizações (ouvir aqui) que se fazem ouvir durante todo o ano.

[© Jiri Bohdal, todos os direitos reservados] – Pica-pau macho adulto.

Reprodução
Este pica-pau normalmente nidifica em árvores, mas ocasionalmente pode faze-lo em postes telefónicos. Também aceita bem caixas-ninho, mas a entrada deverá ter entre 3 e 3,5 cm de diâmetro e uma profundidade de 10 a 18 cm, pois são as características dos ninhos naturais. As primeiras paradas nupciais têm lugar a partir do final de janeiro e cria apenas uma ninhada por ano. As posturas são compostas por 4 a 6 ovos, os quais são incubados durante 11 a 12 dias. As crias tornam-se voadoras entre os 18 e os 20 dias de idade.
 
Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Catry, P., Costa, H., Elias, G., and Matias, R. (2010). Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. (Lisboa: Assírio & Alvim).
Svensson, L. (2012). Guia de Aves (2º edição). Assírio & Alvim, Porto.
http://www.iucnredlist.org/details/22681124/0
http://naturlink.sapo.pt/Natureza-e-Ambiente/Fichas-de-Especies/content/Ficha-do-Pica-pau-malhado-grande?bl=1&viewall=true#Go_1
http://www.avesdeportugal.info/denmaj.html

Floresta Autóctone: história, importância e adversidades

A floresta autóctone portuguesa surgiu como consequência de fatores como o clima e a posição geográfica. Uma floresta autóctone é uma floresta com árvores originárias de uma determinada região. Isto quer dizer que essas árvores não foram introduzidas pelo Homem, mas sim apareceram naturalmente durante o desenvolvimento destes ecossistemas.

Breve história da floresta portuguesa
Ao longo da história da Terra o clima foi mudando, alterando também a composição específica dos diferentes ecossistemas do planeta. Durante o pleistoceno contam-se inúmeros avanços e recuos dos gelos continentais (glaciações) e, por isso, o nosso território esteve coberto de florestas diferentes das atuais. Antes da última glaciação (Würm) Portugal apresentava um clima subtropical húmido e estava coberto por uma floresta de lenhosas sempre-verdes (Laurissilva), comum à que se observa nos dias de hoje nos Açores, Madeira e Canárias. A floresta Laurissilva é assim designada, pois apresenta várias espécies pertencentes à família Lauraceae, como o loureiro (Laurus nobilis e Laurus azorica), o barbuzano (Apollonias barbujana), entre outras.
Durante a última glaciação, devido às baixas temperaturas, a floresta Laurissilva praticamente desapareceu em Portugal e no resto da Europa, restando nos dias de hoje apenas algumas espécies. Estas florestas foram substituídas por uma cobertura florestal semelhante á atual taiga que circunda a parte continental norte do planeta. O pinheiro-de-casquinha (Pinus sylvestris) é disso testemunho e ainda pode ser encontrado nalgumas zonas montanhosas mais frias do país.
Com o aquecimento do clima começaram a aparecer espécies pertencentes à família das fagáceas, como os carvalhos (Quercus sp.) e o castanheiro (Castanea sativa) e outras lenhosas caducifólias (Fig. 1). Atualmente o litoral Norte do país apresenta um clima em que predomina o bioma “Floresta temperada caducifólia”, enquanto que no resto do país predomina o bioma “Floresta e matagal de esclerófilas mediterrânicas”.

Figura 1 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Nesta imagem temos um exemplo de uma floresta onde predomina o carvalho-alvarinho (Quercus robur).

A importância da floresta autóctone
A floresta autóctone tem uma importância enorme não só para a fauna, mas também para o próprio Homem. Estas amenizam o clima e regulam o ciclo da água e a sua qualidade. Têm a capacidade de conservar água e, por isso, estão muito menos suscetíveis e mais resistentes a incêndios, também são importantes na formação e qualidade dos solos. Ajudam a manter a fertilidade do espaço rural (contribuindo com matéria orgânica), o equilíbrio das paisagens e a diversidade dos recursos genéticos e proporcionam bens importantes para o Homem (Fig. 2), tais como: bens lenhosos (madeira e cortiça) e bens não-lenhosos (frutos silvestres, plantas medicinais e aromáticas, cogumelos, mel, pastoreio, caça, etc).
A fauna também beneficia destes ecossistemas, uma vez que servem de refúgio e proporcionam alimento, sendo a biodiversidade muito mais elevada do que em florestas constituídas por plantas invasoras.

Figura 2 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – As florestas autóctones disponibilizam-nos diversos bens que são importantes para as nossas vidas.

Problema das plantas invasoras
Muitas das espécies existentes em Portugal foram transportadas dos seus habitats naturais para o nosso território pelo que são denominadas de plantas exóticas. Nem todas as plantas exóticas são consideradas invasoras. Para serem consideradas como tal, normalmente, devem apresentar um crescimento rápido e/ou elevada dispersão e produção de sementes, comprometer a viabilidade e os serviços de ecossistema das espécies autóctones e não apresentarem inimigos naturais. Ou seja, são capazes de se reproduzir por sementes ou vegetativamente de uma forma exponencial sem serem controladas naturalmente. É importante reter que nem todas as plantas exóticas são invasoras e existem alguns exemplos no nosso país (como a tília (Tilia spp.), o cipreste-português (Cupressus lusitanica)) que existem em equilíbrio com a floresta natural.
No entanto, a maior parte das plantas invasoras têm um efeito extremamente negativo nos ecossistemas e até mesmo no nosso bem-estar (podem provocar doenças, por exemplo).
O eucalipto (Eucalyptus globulus) é um dos exemplos mais conhecidos. Esta espécie é responsável pela diminuição da quantidade de água dos lençóis freáticos, pois tem raízes muito profundas e consome elevadas quantidades de água. Também produz manta morta que não é degradada pelos microrganismos que estão presentes nos nossos solos. Como a decomposição é baixa forma-se uma camada de folhas que tornam os solos impermeáveis à água. Desta forma, a água escorre rapidamente provocando grandes inundações e os lençóis freáticos não são alimentados. Os eucaliptais são locais extremamente secos e as suas folhas libertam compostos voláteis inflamáveis, que servem de combustível a grandes incêndios florestais. Ao contrário dos eucaliptais as florestas autóctones diminuem a possibilidade de cheias e de incêndios florestais.
Outras plantas como algumas espécies pertencentes ao género Acacia têm uma produção e dispersão de sementes bastante elevada, resultando em povoamentos florestais extremamente densos, que impossibilitam o crescimento de plantas autóctones.
A nível europeu estima-se que as perdas a nível económico sejam próximas de 10 biliões €/ano. As espécies invasoras são um dos maiores problemas que enfrentamos, não só a nível ambiental mas também a nível económico.

Adversidades enfrentadas pela floresta autóctone portuguesa
A desflorestação, os incêndios e as plantas exóticas são os principais fatores que ameaçam estas florestas. Desde muito cedo que o Homem tem vindo a destruir estes ecossistemas, pelo menos desde os descobrimentos, altura em que se desflorestou grandes áreas de carvalhos para a construção de embarcações. Para cada nau eram necessários entre 2 mil e 4 mil árvores e no total derrubaram-se mais de 5 milhões de carvalhos. Foi assim que se desflorestou grande parte do país, tendo desaparecido muitos dos carvalhais repletos de biodiversidade.
Mais tarde, principalmente no início do século XX, nos locais onde estas florestas existiam foram plantados pinheiros-bravos (Pinus pinaster), que agora têm sido substituídos pelo eucalipto, parecendo não haver espaço para as plantas autóctones.
Este recurso único tem um grande potencial no nosso país e uma vez aproveitado poderia proporcionar um alto desenvolvimento socioeconómico e bem-estar. Por este motivo uma gestão e uma conservação adequadas são de extrema importância, de forma a garantir a manutenção e equilíbrio da biodiversidade (Fig. 3). No entanto, parece que ainda não encontrou o seu lugar nesta sociedade que vive apenas de números.

Figura 3 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Os ecossistema ripícolas são importantes para a qualidade de diversos serviços de ecossistema.

Referências
Paiva, J. A Biodiversidade e a história da Floresta Portuguesa. Centro de Ecologia Funcional. Universidade de Coimbra
http://www.florestacomum.org/floresta-autoctone/historia-da-floresta-portuguesa/
http://invasoras.pt/o-que-sao/
http://www.florestar.net/invasoras/invasoras2.html

Frango-d’água (Rallus aquaticus)

O frango-d’água (Rallus aquaticus) é uma das espécies mais discretas e de difícil observação da nossa avifauna. São raras as vezes que se mostram, mas é possível ouvir as suas vocalizações que lembram um suíno.

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Frango-d’água adulto.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Gruiformes
Família: Rallidae
Género: Rallus
Espécie: Rallus aquaticus

Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Pouco preocupante” (LC). Apesar de mundialmente estar classificado também como “Pouco preocupante”, aparentemente a pulação está a diminuir.
Distribui-se por toda a Europa, embora não exista nas zonas de maior altitude e nas zonas mais frias, Ásia e Norte de África. Também está presente na Islândia. Em Portugal o frango-d’água ocorre de Norte a Sul (distribuição que no litoral é alargada e no interior muito descontínua), embora seja rara em Trás-os-Montes e na Beira Interior devido à falta de habitat. Os pauis do Baixo Mondego, os estuários do Sado e do Tejo e a lagoa de Santo André são as principais áreas de ocorrência (pode ver o mapa de distribuição aqui).
O frango-d’água é uma ave típica de zonas húmidas, como lagoas, açudes, pauis, estuários, rios, ribeiras, arrozais em pousio, valas, canais e salinas abandonadas. É uma espécie extremamente discreta e muito difícil de observar, portanto a existência de vegetação densa e bem desenvolvida nestes habitats é extremamente importante (por exemplo, caniçais, sapais ou salgueirais).
É fundamentalmente residente no nosso país, no entanto, existe um fluxo significativo de indivíduos migratórios provenientes doutras partes da Europa. É uma ave de hábitos diurnos, que se alimenta caminhado em zonas de água pouca profunda ou cobertas de lama e mais raramente enquanto nada.
Em Portugal ocorre a subespécie nominal (Rallus aquaticus aquaticus).
Alimentação: omnívoro, embora ingira alimento de origem animal em maior quantidade, sobretudo invertebrados aquáticos.

Morfologia Externa e Identificação
Comprimento: entre 23 – 26 cm.
O frango-d’água é uma ave relativamente pequena, com a parte traseira arredondada, pescoço um pouco comprido e bico longo, estreito e ligeiramente curvado. Possui as partes superiores castanho-azeitona malhadas de preto, face e peito cinzento-azulado e flancos e abdómen listrados de preto e branco. O bico é vermelho com o cúlmen e a ponta mais escuros, as patas são alaranjadas e a íris é avermelhada. Os juvenis são todos acastanhados, sem o cinzento-azulado (ver no primeiro vídeo).
É característico da espécie movimentar-se cautelosamente e a seguir rapidamente. Voa pequena distâncias, com batimento d asas muito rápidos e patas pendidas. Mantém frequentemente a cauda curta levantada, semelhante à carriça (Troglodytes troglodytes).
É muito difícil de observar o frango-d’água, mas é comum ouvi-lo. Pode ouvir as vocalizações aqui.

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Frango-d’água adulto.

Reprodução
Por ser uma espécie tão furtiva nada se conhece sobre a reprodução em Portugal. Estudos realizados noutros países europeus mostram que estas aves são extremamente territoriais, têm uma época de reprodução prolongada e podem criar 2 ninhadas num só ano. Os ninhos são bem escondidos na vegetação densa e as posturas compreendem normalmente 6 a 11 ovos. A incubação dura de 19 a 22 dias.

Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Catry, P., Costa, H., Elias, G., and Matias, R. (2010). Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. (Lisboa: Assírio & Alvim).
Svensson, L. (2012). Guia de Aves (2º edição). Assírio & Alvim, Porto.
http://www.avesdeportugal.info/ralaqu.html
http://www.iucnredlist.org/details/full/22725141/0

Garça-branca-pequena (Egretta garzetta)

A garça-branca-pequena (Egretta garzetta) é bastante comum em Portugal, principalmente a sul do rio Vouga. Ocorrem especialmente em zonas húmidas onde podem ser vistas a alimentarem-se, ou a descansarem formando grandes colónias.

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Garça adulta.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Pelecaniformes
Família: Ardeidae
Género: Egretta
Espécie: Egretta garzetta

Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Pouco preocupante” (LC).
A garça-branca-pequena está presente na Europa, África, Ásia e Austrália. Nos anos 50 foi pela primeira vez observada no “Novo Mundo”, mostrando desde então evidências de colonização do continente americano. Em Portugal, ocorre por todo o território, mas apresenta variações de abundância consoante regiões. É mais comum ao longo do litoral a sul do rio Vouga e mais escassa a norte deste. No interior é rara a norte do rio Tejo, mas comum a sul do mesmo (embora no litoral seja mais comum). A população nidificante encontra-se principalmente a sul do rio Tejo e é composta por mais de 2 mil casais, que constituem cerca de 40 colónias (ver mapa
aqui).
Frequenta habitats aquáticos, tais como estuários, rias, pauis, lagoas costeiras, arrozais, salinas, rios, ribeiras, entre outros. No entanto, os arrozais são um dos biótopos de maior preferência ao longo de todo o ano para esta espécie.Uma parte da população nidificante da Península Ibérica efetua movimentos migratórios, sendo que o pico de maior abundância depende da zona em questão (normalmente entre março e setembro).
É típico os indivíduos desta espécie alimentarem-se isoladamente, parecendo defenderem locais de alimentação bem definidos. Tal como muitas outras aves a garça-branca-pequena forma dormitórios sobretudo durante o inverno, localizados fora dos locais de reprodução, partilhando-os com outros ardeídeos (em especial com a garça-boieira (Bulbucus ibis)). Estes dormitórios são normalmente instalados em árvores ou arbustos de zonas húmidas.
De hábitos diurnos, a garça-branca-pequena pode ser vista durante o dia a alimentar-se em zonas húmidas. Para aceder às áreas de alimentação podem-se deslocar vários quilómetros por dia.
Em Portugal ocorre a subespécie nominal (Egretta garzetta garzetta).
Alimentação: essencialmente peixes, anfíbios e invertebrados. A preferência por cada tipo de alimento varia de local para local.

Morfologia Externa e Identificação
Comprimento: entre 55 – 65 cm.
Envergadura: entre 88 – 106 cm.
A garça-branca-pequena é uma garça de dimensão média, esguia e elegante, com um pescoço comprido em forma de “S”. Uma característica única entre as garças do Paleártico Ocidental são as patas negras e os dedos amarelo-vivos de contraste intenso. O bico é preto e os loros são cinzentos-azulados durante a maior parte do ano e lilases durante a corte. A plumagem é toda ela branca e quando na época de reprodução, apresenta na nuca duas penas alongadas (ver no vídeo).
Pode ouvir as vocalizações da garça-branca-pequena aqui.


[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Garça adulta.

Reprodução
Formam colónias, muitas vezes com várias centenas de casais e constroem os ninhos em árvores, falésias e rochedos. A época de reprodução desta espécie é bastante prolongada, uma vez que os primeiros ninhos podem começar a ser construídos em Fevereiro e ainda se observam crias até ao início de Setembro. As posturas (constituídas por 2 a 6 ovos) podem ser feitas desde a primeira semana de Março a Junho.
 
Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Catry, P., Costa, H., Elias, G., and Matias, R. (2010). Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. (Lisboa: Assírio & Alvim).
Svensson, L. (2012). Guia de Aves (2º edição). Assírio & Alvim, Porto.
http://www.avesdeportugal.info/egrgar.html
http://www.iucnredlist.org/details/62774969/0

Leirão (Eliomys quercinus)

O leirão (Eliomys quercinus) é um roedor arborícola pertencente à família Gliridae. Este curioso animal é um dos mamíferos mais esquivos da nossa fauna, não se conhecendo de forma exata a  sua distribuição e efetivos populacionais. 

[© Jiri Bohdal, todos os direitos reservados] – Leirão adulto.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Rodentia
Família: Gliridae
Género: Eliomys
Espécie: Eliomys quercinus
 
Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Informação Insuficiente” (DD). À escala global está classificado como “Quase Ameaçado” (NT) pela IUCN. O leirão tornou-se raro em grande parte da sua área de distribuição, estando em perigo de extinção na Republica Checa, na Eslováquia, na Polónia e na Finlândia.
O leirão é uma espécie europeia, amplamente distribuída pela Europa Ocidental e com populações dispersas no leste e Norte. Em Portugal, ocorre por todo o território continental, embora estudos não confirmem a sua presença em vastas regiões do Centro e Sul e apontem para ocorrências muito escassas e dispersas na restante área. Não há informação sobre o estado das populações portuguesas, mas é sabido que a sua abundância é relativamente inferior à de outras espécies de roedores (ver mapa de distribuição aqui).
Habita variados ecossistemas, como florestas de coníferas e de folha caduca, matagais mediterrânicos, montados e zonas pedregosas com vegetação escassa. É possível encontrar este roedor também em construções humanas, hortas, jardins e pomares. Apesar de toda esta variedade de habitats que o leirão pode ocupar, prefere particularmente florestas de carvalhos. Ocorre desde o nível do mar até altitudes superiores a 1500 m.
Esta espécie tem hábitos noturnos, porém pode estar ativo logo após o amanhecer. Durante o dia abriga-se em ninhos esféricos, construídos normalmente em árvores, revestidos com musgo, pelos e penas ou então aproveita abrigos de esquilos ou ninhos de aves adaptando-os. Durante os períodos mais frios do ano (normalmente entre Setembro e Abril, embora dependa das condições ambientais locais) hiberna em troncos ocos de árvores ou em cavidades de muros e de cavernas. As diferentes espécies de leirão são conhecidas por serem arborícolas, no entanto, esta espécie despende cerca de 1/3 do seu tempo no solo. Cada indivíduo ou grupo ocupa um território definido, com cerca de 150 m de diâmetro, mantendo-se inalterado de um ano para o outro. Como estratagema anti-predatório perdem facilmente a pele da cauda, processo que acaba com as vértebras ao descoberto. Tal como alguns musaranhos, já foi observado várias vezes a mover-se em fila, comportamento designado por caravana.
Alimentação: invertebrados, frutos, sementes, crias de aves e de outros roedores e ovos. Embora omnívoro, a dieta do leirão inclui mais proteína animal do que vegetal.

Morfologia Externa e Identificação
Comprimento: entre 19 – 32 cm.
Peso: entre 45 – 120 g (até 210 g antes do período de hibernação).
Roedor com olhos e orelhas grandes. Na região dorsal o leirão apresenta pelagem castanho-avermelhada/acinzentada e branca na zona ventral e nas patas. A cauda é longa, quase do comprimento do corpo, espessa e negra na parte superior, terminando num tufo branco. Uma caraterística identificativa desta espécie é a máscara negra que está presente desde parte inferior das orelhas até aos olhos.

© Jiri Bohdal, todos os direitos reservados] – Leirão adulto.

Reprodução
Os acasalamentos ocorrem logo após a hibernação, em Abril (a época de reprodução estende-se até junho). O período de gestação dura entre 21 e 23 dias e os nascimentos ocorrem entre maio e junho. Podem ter 1 a 2 ninhadas por ano, com 4 a 5 crias.
 
Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Macdonald, D., and Barret P. (1993). Guias Fapas, Mamíferos de Portugal e Europa. Fapas, Porto.
Bertolino, S., Cordero, N., Currado, I. (2003). Home Ranges and Habitat use of the Garden Dormouse (Eliomys quercinos) in a Mountain habitat in Summer. Acta Zoológica Academiae Scientiarum Hungaricae 49, 11-18.
http://www.iucnredlist.org/details/7618/0