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Extinções de Portugal: Quebra-ossos (Gypaetus barbatus)

Existem alguns documentos que remetem para uma presença histórica do quebra-ossos (Gypaetus barbatus) no nosso país, no entanto, estas informações não são totalmente conclusivas. Este imponente abutre terá existido em praticamente todos os maciços montanhosos da Península Ibérica, encontrando-se atualmente apenas nas montanhas da Andaluzia e Pirenéus.

Figura 1 [© Jan Sevcik, todos os direitos reservados] – Adulto com um osso no bico.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Accipitriformes
Família: Accipitridae
Género: Gypaetus
Espécie: Gypaetus barbatus

Distribuição Mundial
O quebra-ossos tem uma distribuição mundial alargada, ocorrendo na Europa, Médio Oriente, Centro e Sul da Ásia e Norte, Oeste e Sul de África. Apesar desta grande amplitude de ocorrência, muitas populações encontram-se isoladas, destacando-se as do Médio Oriente e da Ásia com uma distribuição mais contínua.
Na Europa, pelo menos durante os séculos XIX e XX, o quebra-ossos foi perseguido pelo Homem até à extinção em vários locais, dos quais Portugal e Alpes fazem parte. Felizmente hoje, fruto de um projeto de reintrodução bem-sucedido, podemos observar este belíssimo abutre nos Alpes, onde as populações têm prosperado e aumentado. Outro projeto de reintrodução está a acontecer na Andaluzia, parecendo também estar a dar frutos. Nos Pirenéus existe uma população importante, em 2007 era constituída por 119 pares reprodutores, que resistiu à pressão humana ao longo dos anos (ver mapa de distribuição aqui).
Atualmente a população mundial encontra-se em declínio e é composta por 1300-6700 indivíduos maturos. Tendo em conta estes dados a espécie está classificada como “Quase Ameaçada (NT)” pelo IUCN Red List.

Ecologia e Identificação
O quebra-ossos é um abutre enorme, com uma envergadura que varia entre os 2,35 e os 2,75 m. Apresenta asas invulgarmente estreitas e pontiagudas para uma rapina tão grande e, tal como o britango (Neophron percnopterus), possui a cauda cuneiforme. O britango tem uma silhueta parecida com a do quebra-ossos, mas é bem mais pequeno, a cauda é mais curta em proporção (no quebra-ossos é claramente mais comprida do que a largura da asa) e as asas são menos aguçadas.
Os adultos (Fig.1) têm a parte inferior do corpo, pescoço e cachaço de várias tonalidades de amarelo-torrado ou com matizes alaranjadas intensas, que contrastam com o tom escuro da face inferior das asas. A cabeça é esbranquiçada com duas largas linhas negras, que se prolongam desde os olhos até à base do bico, formando “barbichas”. Em voo, com boa luz, é possível notar que as pequenas e médias coberturas infra-alares são mais escuras que as restantes penas da asa. As partes superiores das asas são de um cinzento-chumbo.
Os juvenis (Fig. 2) caracterizam-se por terem o corpo cinzento ou acastanhado, que contrasta com a cabeça por esta ser mais escura. O manto, o uropígio e algumas coberturas são pálidas, enquanto que a restante parte superior é escura. A silhueta também é um pouco diferente, a cauda é mais curta e as asas são mais largas com as pontas mais arredondadas. As aves imaturas atingem o padrão de adulto aos 5 anos, embora possam manter a cabeça escura por mais tempo.

Figura 2 [© Jan Sevcik, todos os direitos reservados] – Juvenil.

A espécie ocupa áreas montanhosas remotas com terreno acidentado, normalmente acima dos 1000 m e preferencialmente locais onde grandes predadores, com a águia-real (Aquila chrysaetos) e o lobo (Canis lupus), estão presentes.
O seu alimento principal são os ossos, que podem representar 85% da sua dieta, conseguindo os nutrientes a partir da medula óssea. Para ingerirem este alimento adquiriram a estratégia de largar os ossos enquanto voam (a 50-80 m de altura), para que se partam ao bater nas rochas (ver vídeo). A carne de mamíferos recém mortos também é importante, sobrepondo-se à carniça de que se alimenta em caso de penúria. O resto da alimentação é composta por tartarugas, tratando-as da mesma forma que os ossos. Na procura de alimento o quebra-ossos consegue percorrer mais de 700 Km num só dia.
Cada casal pode construir vários ninhos de grandes dimensões em grutas ou em fendas profundas de escarpas. Na Europa, as fêmeas põem 1 a 2 ovos entre Dezembro e Setembro e incubam-nos durante 55 a 60 dias. As crias permanecem no ninho cerca de 110 dias. Os quebra-ossos formam casais estáveis para toda a vida.

Distribuição histórica e extinção em Portugal
Há registos já no século XVII que referem o quebra-ossos como residente no nosso país, no entanto, estes documentos não são totalmente conclusivos. Nos finais do século XIX, o rei D. Carlos refere nas suas notas a existência de “águias com barbas” na serra do Marão e que por lá nidificariam. Esta observação é bastante sugestiva, uma vez que a espécie deveria existir naquele tempo em praticamente todos os maciços montanhosos da Península Ibérica. O próprio rei abateu 2 dos indivíduos (um macho e uma fêmea) no vale do Guadiana, por volta de Junho de 1888, que estão conservados no Museu da Universidade de Coimbra. Não se conhecem registos da ocorrência de quebra-ossos em Portugal desde o final do século XIX até 2011. Durante este ano foram feitas observações de 2 aves diferentes, na Beira Interior e no Nordeste Transmontano, provenientes de libertações feitas em Espanha. Nenhuma destas aves permaneceu nosso território, mas tendo em conta o sucesso do projeto de reintrodução espanhol não é de descartar a hipótese de possíveis visitas mais regulares e até de recolonização.

Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L. and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Catry, P., Costa, H., Elias, G., and Matias, R. (2010). Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. (Lisboa: Assírio & Alvim).
García, C.B., Gil, J.A., Alcántara, M., González,J., Cortés, M.R., Bonafonte, J.I. and Arruga, M.V. (2012). The present Pyrenean population of bearded vulture (Gypaetus barbatus): Its genitic characteristics. J.Biosci. 37(4). 689-694
Mingozzi, T. and Balletto, E. (1996). The historical extirpation of the bearded vulture Gypaetus barbatus in the wertern Alps (France – Italy): modelling the impacto f human persecution. Ital. J. Zool. 63 : 371-376
Svensson, L. (2012). Guia de Aves (2º edição). Assírio & Alvim, Porto.
http://www.avesdeportugal.info/gypbar.html
http://www.birdlife.org/datazone/speciesfactsheet.php?id=3370
http://www.iucnredlist.org/details/22695174/0

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Castor-europeu (Castor fiber)

Sabe-se hoje, sem qualquer dúvida, que o castor-europeu (Castor fiber) existiu em Portugal. As provas resumem-se á toponímia e aos restos de fósseis encontrados em escavações arqueológicas, no entanto, a sua distribuição e data de extinção são menos claras.

Fig. 1 [© Jiri Bohdal, todos os direitos reservados] –  Castor-europeu.

Distribuição Mundial
O castor-europeu (Fig. 1) já esteve amplamente distribuído na Europa e na Ásia, no entanto, no início do século XX a caça excessiva e a drástica destruição de habitat conduziu a uma diminuição assustadora da sua área de distribuição e do número de indivíduos.
Atualmente na Europa apenas se encontram em alguns locais isolados: em certas partes de Ródano (França) e Elbe (Alemanha), no Sul da Noruega, no rio Neman, na bacia do rio Dnieper (Bielorrússia) e em Voronezh (Russia). Foram feitas reintroduções em vários países (ver aqui cor roxa do mapa) que com as apropriadas políticas de gestão e conservação estão a ser bem-sucedidas, notando-se uma expansão rápida destas populações.
Na Península Ibérica o castor-europeu chegou a estar extinto, mas em 2003 foi reintroduzido em Espanha de forma clandestina por um grupo de ativistas.
Está classificado como “Pouco Preocupante” pela IUCN Red list, uma vez que a espécie está a recuperar bem na grande parte da sua extensão de ocorrência.

Ecologia e Identificação
O castor-europeu mede entre 103 e 128 cm, característica que lhe confere o estatuto de maior roedor Europeu. Possui uma cauda larga, horizontalmente achatada e escamosa e os dentes incisivos são grandes e amarelados. A cor do pelo varia um pouco (as formas do Norte são mais escuras do que as do Sul), desde castanho-amarelado a quase preto, mas a tonalidade mais vulgar é a castanho-avermelhado. As patas posteriores estão providas de membranas interdigitais natatórias, tornando o castor um excelente nadador.
Habita preferencialmente vales de cursos de água largos com vegetação arbórea. Quando propício, constrói os ninhos em tocas, caso contrário constrói ninhos que consistem num amontoado de ramos com acessos aquáticos, ficando acima do nível da água. Para manter o nível da água adequado, os castores constroem um elaborado sistema de canais e diques com paus, ramos de árvores e lama, estruturas que podem ter até 50m de cumprimento. Para estas construções têm de cortar várias árvores, que podem ter um diâmetro bastante considerável (Fig. 2)
É sobretudo noturno, mas o pico de atividade é ao fim da tarde quando não há perturbação. Armazenam o alimento nos diques de forma a mante-lo fresco, para que todos os elementos do grupo se possam alimentar durante vários dias. Estes grupos sociais são normalmente constituídos por 5 ou 6 castores: casal adulto, juvenis com 1 ano do verão anterior e juvenis nascidos no presente verão. O castor-europeu é monogâmico e os juvenis permanecem 2 anos no local de nascimento.
Os acasalamentos ocorrem em fevereiro e os nascimentos em junho. A longevidade em estado selvagem é de 7 a 8 anos, mas ocasionalmente podem chegar aos 25 anos.
A dieta é bastante diversificada, consumindo frutos, ervas, insectos e carne.
Durante a primavera e verão alimenta-se de ervas, folhas e ramos de plantas herbáceas e no outono e inverno alimenta-se de arbustos, ramos e cascas de árvores.

Fig. 1 [© Jiri Bohdal, todos os direitos reservados] – Árvore cortada por um castor.

Distribuição histórica e extinção em Portugal
Atualmente não restam dúvidas de que o castor-europeu existiu em Portugal, provas disto são as toponímias e os vários fósseis encontrados. Outras espécies já existiram em Portugal durante o Mioceno, mas nenhuma parece ter sido abundante.
O castor-europeu não aparenta ter sido uma espécie muito comum durante toda a sua história e a perseguição por parte do Homem piorou ainda mais a sua situação. As peles eram consideradas de luxo e a carne era também muito apreciada. Era usado na medicina como antiespasmódico, ou como afrodisíaco e os óleos produzidos eram usados na perfumaria. Por estas razões a espécie acabou por se extinguir por volta do século XV.
Em Portugal distribuía-se principalmente a norte do rio Tejo (nas principais bacias hidrográficas), em locais com condições climáticas não excessivamente quentes, com fornecimento de águas fluviais permanentes e com pluviosidade superior a 800mm por ano.
O regresso do castor a Portugal é pouco provável uma vez que não existem condições para o reintroduzir. Ter-se-ia que reflorestar vastas áreas com plantas autóctones, de forma a fornecer o habitat e o alimento necessário para a espécie prosperar.

Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Antunes, M.T. (1989). Castor fiber na gruta do Caldeirão. Existência, distribuição e extinção do castor em Portugal.

http://www.iucnredlist.org/details/4007/0

Extinções de Portugal: O urso-pardo-europeu (Ursus arctos arctos)

O urso-pardo é um grande mamífero, conhecido dos documentários sobre os ecossistemas do Norte da América. Mas este incrível animal pode ser encontrado na Europa e até mesmo na Península Ibérica., mas infelizmente encontra-se extinto de Portugal.
  Fig. 1 – Urso-pardo-europeu

Distribuição Mundial
O urso-pardo é o ursídeo mais amplamente distribuído pelo planeta. Ocorre na parte mais a norte do continente Norte Americano, em certos locais da Europa, Ásia e até no norte de África.
Na Europa, encontramos a subespécie Ursus arctos arctos, estando grande parte das populações isoladas e constituídas por poucos indivíduos. O principal reduto situa-se no Norte da Escandinávia, alcançando a ex-URSS.
Na Península Ibérica, o urso sofreu uma acentuada redução devido à acção directa e indirecta do Homem e encontra-se actualmente circunscrito à Cordilheira Cantábrica (menos de 100 indivíduos) e Pirinéus (cerca 10 indivíduos).
Habita preferencialmente zonas montanhosas com florestas mistas, mas também pode ser encontrado noutros tipos de biótopos, como em zonas de tundra.

Biologia
O urso-pardo-europeu é um grande mamífero com corpo pesado e robusto, pertencente à ordem Carnivora. Apresenta a cauda muito reduzida (6-21mm) e orelhas curtas e arredondadas. A maioria dos ursos são castanhos, mas há alguma variação, existindo indivíduos amarelos-acinzentados ou pretos.
Este animal atinge facilmente 170 cm de comprimento, podendo chegar aos 280 cm. O peso dos machos normalmente compreende-se entre os 100 e os 315 kg, mas poderá ultrapassar este valor; as fêmeas raramente ultrapassam os 200 kg (no video a baixo, podemos ver um macho com 400 kg).
Como indícios da presença destes animais temos pegadas de grandes dimensões, escavações quando se alimentam em formigueiros e ninhos de vespa, marcas de garras em troncos e cepos arrancados de madeira podre.
Durante o Inverno hiberna numa cavidade subterrânea ou numa caverna forrada com vegetação, que constrói antes da chegada dos meses mais frios. No Verão, nos climas mais quentes tais como no sul da Europa, refugia-se em cavidades naturais ou debaixo de árvores para fugir às altas temperaturas. Geralmente tem comportamentos solitários, mas aglomera-se em grandes números juntos dos recursos alimentares. Os machos adultos têm territórios que rodeiam os das fêmeas e que se sobrepõem aos de outros machos. Estes lutam durante a época de reprodução pelas fêmeas.
A dieta é bastante diversificada, consumindo frutos, ervas, insectos e carne.

Distribuição histórica e extinção em Portugal
Não há dúvidas de que o urso fazia parte da fauna portuguesa, mas infelizmente actualmente encontra-se extinto das nossas florestas. Existem várias provas da sua presença, tais como as construções dedicadas à captura de ursos e as dedicadas à protecção dos bens de ataques causados por estes (por ex, colmeias).
As construções com o objectivo de proteger as colmeias eram estruturas robustas e elaboradas, muitas vezes com paredes de 1 m de espessura e mais de 2 m de altura, são as chamadas silhas. A partir da presença numa região destas estruturas, podemos deduzir que o urso já ocorreu nesse mesmo local. Existem 27 concelhos em Portugal onde a presença de silhas está confirmada e 11 onde a presença é provável. A antiga distribuição do urso em Portugal pode ser vista na Figura 2.
A presença do urso também pode ser comprovada por registos documentais, os mais antigos remetem para os séculos XI e XII, e relacionam-se com o facto de a caça grossa estar sujeita ao tributo de condado ou montaria. Esta lei obrigava os caçadores a oferecerem ao rei a parte mais nobre de cada peça de caça maior abatida.
O urso, desde a Idade Média era considerado um dos maiores prémios de caça e era também confrontado para preparação guerreira. Desta forma, foi desde cedo alvo de protecção por parte da monarquia.
Ao longo do século XV esta espécie ainda ocorria a Norte do rio Douro e em vários locais no interior do país, nomeadamente Beira Interior e Alentejo. No entanto, é a partir deste século que a distribuição do urso parece começar a diminuir, principalmente na metade sul, devido à perseguição directa e à destruição de vastas extensões de floresta. Esta destruição de habitat coincidiu com a época dos descobrimentos, sendo grande parte da madeira utilizada para a construção de embarcações. Devido a esta diminuição do número de indivíduos, D. João I proibiu a caça ao urso, mas o povo continuou-o a perseguir pelos prejuízos que estes lhes causavam nas colheitas e no gado. Como resultado, nos finais do século XVI a presença do urso em Portugal é considerada por muitos autores como estando apenas confinada às montanhas fronteiriças do extremo Noroeste, nomeadamente à Serra do Gerês.
A data de extinção do urso em Portugal é um pouco questionável. Documentos do século XVIII indicam que o último urso foi morto em 1650, na Serra do Gerês, mas actualmente considera-se que sobreviveu para além do século XVII.
Em 1835 foi publicado num jornal uma notícia que alude para a programação de uma caçada ao urso na Serra de Montesinho. Além disso, Gabriel Pereira refere que até meados do século XIX ainda existia a espécie, embora de forma irregular nas montanhas do Minho e Trás-os-Montes.
Justo Méndez referre que até 1930 ainda subsistiam alguns exemplares na zona fronteiriça da Serra do Gerês.

 Fig. 2 [retirada de Álvares et al, 2010] – Concelhos com edificação confirmada ou provável de silhas.

Com base nestas informações, o urso-pardo terá ocorrido nas Serras do Norte até meados do século XX. A existência da espécie em Portugal neste século poderá ter tido origem de movimentos dispersivos de indivíduos provenientes de Espanha.
É pouco provável que o urso volte a fazer parte dos ecossistemas portugueses, pelo menos de uma forma estável, pois é uma espécie que necessita de muito espaço de zonas naturais. Talvez no futuro as questões ambientais sejam levadas mais a sério e se criem condições para este animal magnífico proliferar no Norte do país.

Bibliografia
http://www.iucnredlist.org/details/41688/0
Macdonald, D. e outros. 1993. Guias Fapas, Mamíferos de Portugal e Europa. Fapas
Álvares, F., Jr. and Domingues, J. (2010). Presença histórica do urso em Portugal e testemunhos da sua relação com as comunidades rurais.