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Víbora-de-Seoane (Vipera seoanei)

A víbora-de-Seoane é a serpente mais ameaçada de Portugal, ocorrendo apenas o esxtremo Noroeste do país. É uma espécie venenosa, no entanto ataca apenas se for perturbada, pois a primeira opção é sempre a fuga. 

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Víbora-de-Seoane adulta.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Reptilia
Ordem: Squamata
Família: Viperidae
Género: Vipera
Espécie: Vipera seoanei

Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Em Perigo” (EN), pois a espécie tem uma distribuição muito reduzida. Apresenta fragmentação elevada e, como se não fosse suficiente, a qualidade do habitat e o número de indivíduos têm diminuído. Mundialmente está classificado como “Puco Preocupante” (LC).
A víbora-de-Seoane ocorre no extremo Norte da Península Ibérica, desde o litoral Oeste de Espanha até aos Pirenéus Franceses. Em Portugal ocorre numa área extremamente reduzida, em núcleos no Noroeste, nomeadamente nas Serras de Castro Laboreiro, Soajo, Tourém, Larouco e Montalegre (pode ver o mapa de distribuição aqui).
Habita preferencialmente zonas de lameiros, prados e matos rodeados por muros de pedra, com cobertura arbustiva baixa, mais ou menos densa, na proximidade de cursos de água. Pode ainda ocorrer em zonas de floresta.
É uma espécie diurna, mas pode apresentar atividade crepuscular ou noturna durante os meses mais quentes do ano. Tal como grande parte dos restantes répteis hiberna, desde finais de outubro-novembro até fevereiro-março, período que pode variar de acordo com as condições climáticas de cada ano e com a altitude. Tem vários predadores naturais, dos quais se destacam a águia-de-asa-redonda (Buteo buteo), a raposa (Vulpes vulpes), a lontra (Lutra lutra) e o gato-bravo (Felis silvestris). Quando ameaçada opta sempre pela fuga, no entanto quando não o consegue fazer opta por um comportamento agressivo e pode chegar a morder.
É uma espécie venenosa solenoglifa, o que significa que os dentes inoculadores estão situados na região anterior do maxilar. O seu veneno, tal como o da víbora-cornuda (Vipera latastei), não é muito forte comparado com o de outras víboras, mas deve-se ter especial preocupação com crianças, idosos e indivíduos alérgicos ao veneno. É importante salientar que estes animais só mordem se se sentirem apertados ou se alguém os tentar apanhar, pois a primeira opção é sempre a fuga e, por isso, desaparecem mesmo antes de os vermos.
Pode sobreviver até aos 13 anos de idade.
Em Portugal ocorre a subespécie nominal (V. s. seoanei).
Alimentação: apresenta uma dieta muito variada, na qual se incluem micromamíferos, répteis, anfíbios e aves (passeriformes).

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Víbora-de-Seoane adulta.

Identificação
Comprimento: entre 45-50 cm.
A víbora-de-Seoane é uma víbora de pequeno tamanho, com corpo robusto, cauda curta e cabeça triangular bem diferenciada do tronco. O dorso está coberto por escamas carenadas e as placas cefálicas são fragmentadas. A pupila é vertical e a íris é dourada ou avermelhada. O dorso é cinzento, castanho claro ou bege, com uma banda vertebral mais escura e de largura variável, à qual se juntam umas manchas escuras, que podem ser opostas ou alternadas, formando bandas transversais ou um zigue-zague respetivamente. Na parte posterior da cabeça é comum existirem duas manchas escuras que formam um “V” invertido e nos flancos surgem frequentemente manchas arredondadas, também escuras. O ventre é negro ou acinzentado, com manchas esbranquiçadas. Alguns indivíduos são todos pretos.
As fêmeas atingem um tamanho ligeiramente superior ao dos machos, que normalmente apresentam cores e desenhos mais contrastados.
Esta espécie pode ser confundida com a víbora-cornuda, mas distingue-se por apresentar o focinho menos proeminente e a cabeça menos triangular.

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Diferença no focinho entre a Víbora-de-Seoane (esquerda) e a víbora cornuda (direita).

Reprodução
Existem duas épocas de reprodução e os acasalamentos ocorrem nos meses de abril e maio e entre agosto e outubro. O número de crias por ninhada depende do tamanho da fêmea, variando entre 3 e 10 crias. A maturidade sexual é alcançada aos 3 ou 4 anos de idade, quando atinge cerca de 30 a 40 cm de comprimento.

Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Almeida., N.F., Almeida, P.F., Gonçalves, H., Sequeira, F., and Almeida, J.T.F.F. (2001). Guia FAPAS Anfíbios e Répteis de Portugal. (FAPAS, Porto)
Godinho, R., Teixeira, J., Rebelo, R., Segurado, P., Loureiro, A., Álvares, F., Gomes, N., Cardoso, P., Camilo-Alves, C., and Brito, J. (1999) Atlas of the continental Portuguese herpetofauna: an assemblage of published and new data. Rev. Esp. Herp. 13:61-82
http://naturlink.sapo.pt/Lazer/Turismo-na-Natureza/content/Picadas-e-mordeduras-de-animais/section/5?bl=1&viewall=true#Go_5 http://www.iucnredlist.org/details/61594/0

Borboletas: Evolução, Biologia e importância

As borboletas têm conquistado a nossa admiração com a sua beleza ao longo de séculos, sendo atualmente o grupo de insetos mais popular. Estas desempenham um papel importantíssimo nos ecossistemas, bem como nas nossas vidas e são uma ferramenta útil em estudos de qualidade ambiental.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Vanessa-dos-cardos (Vanessa cardui)

Evolução das borboletas
As borboletas diurnas e noturnas formam um grupo de insetos pertencente à Ordem Lepidoptera, muito diversificado, com cerca de 165 000 espécies identificadas em todo o mundo e cerca de 5 000 na Europa. Este número é apenas superado pela Ordem Coleoptera, grupo no qual se incluem os escaravelhos.
Do ponto de vista evolutivo, sabe-se que as borboletas são um grupo relativamente recente, mas ainda restam algumas dúvidas sobre o seu ancestral, uma vez que o registo fóssil a que temos acesso é indiscutivelmente insuficiente para formar uma ideia mais clara. Atualmente pensa-se que os lepidópteros partilharam um ancestral comum com os tricópteros (Trichoptera), à cerca de 250 milhões de anos (Ma.), durante o Pérmico. Foram encontrados fósseis, datados do Triássico, em que a forma se assemelha a uma mariposa, mas não se sabe se correspondiam a mariposas primitivas ou a tricópteros. Apenas em estratos do Cretácico Inferior (120 Ma.) é que se começa a observar indiscutivelmente a uma grande diversidade de mariposas primitivas. As borboletas diurnas terão aparecido também no Cretácico e no Oligocénico (40 Ma.) já existiam as principais famílias, morfologicamente semelhantes às borboletas atuais.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Exemplar de uma borboleta noturna (traça)

Biologia das borboletas
Estes insetos distinguem-se dos restantes por possuírem asas membranosas compostas por pequenas escamas coloridas e por passarem por metamorfoses completas. Outra característica importante é a presença de uma probóscide, uma tromba com a função de sugar o néctar das flores e água do orvalho.
Apesar de algumas espécies serem mais sensíveis e mais exigentes relativamente às condições do habitat do que outras, as borboletas podem ser encontradas praticamente em todos os ecossistemas portugueses. Claro que quanto mais saudável for o ecossistema, ou seja, aquele que apresenta menores vestígios da atividade humana, maior será a possibilidade de estabelecimento de colónias numerosas, de uma maior variedade de espécies. Uma característica interessante é que certas espécies podem ter habitats diferentes ao longo da sua vida: há espécies que habitam enquanto lagarta em zonas onde abundam as plantas de que se alimentam, mas quando adultas procuram outros locais, onde as suas flores preferidas existem em quantidade suficiente para sobreviverem. Posteriormente voltam ao local de origem para depositarem os ovos.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Duas lagartas de borboleta.

A migração não está presente apenas nas aves e nos mamíferos, as borboletas também o fazem, de forma a evitarem condições adversas à sua sobrevivência. Em Portugal há várias borboletas que que realizam estes movimentos: Colias croceus, Vanessa atalanta, Vanessa cardui e Libythea celtis.
A metamorfose completa é uma característica particular das borboletas, que engloba 4 estádios de desenvolvimento: ovo, lagarta, crisálida e inseto adulto. Ao contrário de muitos outros animais, os estados imaturos apresentam uma morfologia e comportamento bem distintos do estado adulto, por exemplo, o regime alimentar é muito diferente entre larvas e adultos. Em algumas espécies, os machos possuem territórios, os quais defendem durante o período de reprodução; noutras os machos possuem comportamento gregário.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Acasalamento entre duas borboletas pertencentes à espécie Plebejus argus.

Porque são importantes?
As borboletas têm um papel crucial nos ecossistemas, desempenhando funções essenciais para que estes se mantenham saudáveis. Tal como as abelhas, são importantes na reprodução de muitas plantas (são insetos polinizadores), existindo inclusivamente flores que são exclusivamente polinizadas por borboletas. Para além disso, as borboletas são a base de muitas cadeias tróficas, servindo de alimento para aves, morcegos e outros animais insetívoros.
Tendo em conta todas estas características e sabendo que têm um ciclo de vida curto e, portanto muitas gerações em pouco tempo, as borboletas permitem uma rápida acumulação de informações da sua biologia e da sua evolução, sendo ideais para o estudo da dinâmica de populações. Certas espécies dependem exclusivamente de uma única planta ou de condições ambientais muito particulares, tornando-as muito sensíveis a alterações do seu ambiente. São, por isso, consideradas espécies indicadoras da qualidade ambiental e da qualidade dos próprios ecossistemas. Assim, os lepidópteros são muitas vezes utilizados em estudos de biologia da conservação.
Apesar da importância para o ambiente e para ciência, este grupo de insetos acaba por ter um impacto direto nas nossas vidas. Normalmente as pessoas gostam de ver borboletas nos seus jardins, assim como há pessoas que percorrem longas distâncias a pé para as observar, contribuindo de alguma forma para uma vida mais saudável. Para além disto, as borboletas também possibilitam economias mas ricas, uma vez que polinizam muitas das plantas que nos servem de alimento e são protagonistas em várias Eco-tours por todo o mundo.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Lycaena alciphron

Referências
Maravalhas, E. (2003). As Borboletas de Portugal. Ernestino Maravalhas
http://naturlink.sapo.pt/Natureza-e-Ambiente/Fauna-e-Flora/content/Origem-e-Evolucao-das-Borboletas?bl=1
http://naturlink.sapo.pt/Natureza-e-Ambiente/Agricultura-e-Floresta/content/Monitorizacao-de-borboletas-diurnas-e-a-gestao-sustentavel-dos-montados-de-sobro-um-estudo-na-Serra-do-Caldeirao?bl=1&viewall=true
http://butterfly-conservation.org/45/why-butterflies-matter.html

Cegonha-branca (Ciconia ciconia)

A cegonha-branca (Ciconia ciconia) é uma das aves mais conhecidas e emblemáticas da avifauna portuguesa. As suas características únicas, torna a sua identificação muito fácil, mesmo quando está em voo.

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Cegonha-branca adulta.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Ciconiiformes
Família: Ciconiidae
Género: Ciconia
Espécie: Ciconia ciconia

Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Pouco preocupante” (LC), embora no passado estivesse classificada como “Vulnerável” devido aos números reduzidos de indivíduos que existiam no país e no resto do mundo em geral. Este declínio populacional, durante o século XX, foi resultado de uma longa seca em África, onde a espécie inverna. Mundialmente está também classificada como “Pouco preocupante”, pois esta espécie tem uma distribuição extremamente ampla e o tamanho da sua população mundial não se aproxima dos limiares de vulnerabilidade.
A cegonha-branca está presente por quase toda a Europa, com exceção de algumas áreas da Europa Central. Na Ásia ocorre de forma descontínua, mas formando populações extensas em área e em África distribui-se de forma alargada e contínua. É importante reter que a distribuição da cegonha depende da altura do ano, uma vez que é uma espécie migradora. Em Portugal nidifica de norte a sul, mas é escassa no Noroeste do país, sendo notoriamente mais comum a sul do rio Tejo, concentrando-se sobretudo no Alentejo (pode ver o mapa de distribuição aqui).
Habita preferencialmente as proximidades de zonas húmidas, mas ocorre também em terrenos secos. Frequenta, por isso, um vasto leque de habitats, desde terrenos abertos com pastagens ou pousios e montados abertos, a habitats mais húmidos como, charcas, açudes, pauis, rios, ribeiras, lameiros, lagoas costeiras, estuários e arrozais. Aceita com facilidade a presença humana, construindo os seus ninhos frequentemente em estruturas não naturais. As lixeiras, em algumas zonas, são também exploradas pela espécie.
As populações de cegonha-branca, em Portugal, são constituídas no inverno por indivíduos residentes e durante a época de reprodução há um elevado reforço de indivíduos migradores. É uma migradora excecionalmente precoce, uma vez que as zonas de criação do Alto Alentejo começam a ser ocupadas a partir de meados de novembro. No entanto, a maior parte das aves chegam em janeiro e fevereiro e regressam aos seus locais de invernada a partir da primeira quinzena de julho.
Em Portugal ocorre a subespécie C.c.ciconia.
Alimentação: espécie generalista, mas os invertebrados parecem ser o alimento mais consumido em muitas regiões. Também se alimenta de pequenos mamíferos, répteis, anfíbios e aves. A expansão do lagostim-vermelho (Procambarus clarkii) deverá ter resultado numa alteração significativa do regime alimentar em muitas áreas, já que é uma espécie bastante consumida pela cegonha.

Morfologia Externa e Identificação
Comprimento: entre 95 – 110 cm.
Envergadura: entre 180 – 218 cm.
A cegonha-branca é uma ave de dimensão muito grande, com o pescoço e patas compridas. Apresenta uma plumagem branca que contrasta com as penas de voo (primárias, secundárias e terciárias), grandes coberturas, coberturas primárias, alula e escapulares, que são pretas. O bico é bastante comprido e forte, que tal como as patas é avermelhado. O dimorfismo sexual é pouco evidente e de difícil perceção no campo, sendo o macho ligeiramente maior do que a fêmea.
Os juvenis distinguem-se dos adultos através da coloração do bico e das patas. O bico, nas primeiras fases da vida, é mais curto e escuro, passando progressivamente a uma coloração mais avermelhada com a ponta preta. As patas são mais pálidas nos juvenis.
Ao voar mantém o pescoço esticado e projeta as patas para trás, tornando a sua silhueta bem distinta da maior parte das restantes aves.
Esta espécie não vocaliza, mas produz um ruído alto com o abrir e fechar do bico, ouvido sobretudo quando os casais se reúnem no ninho (ouvir aqui).

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Cegonha-branca adulta em voo.

Reprodução
A cegonha-branca é uma espécie monogâmica, que pode nidificar isoladamente ou em pequenas colónias, quer monoespecíficas, quer partilhadas com garças e colhereiros. Os ninhos podem ser usados durante anos sucessivos e são normalmente construídos em locais altos, como chaminés, edifícios, árvores, postes de eletricidade de alta tensão, falésias costeiras, etc.
A ocupação dos primeiros ninhos acontece em janeiro, acentuando-se este fenómeno durante os primeiros dias de fevereiro. As posturas são efetuadas durante o mês de março e são constituídas por 2 a 5 ovos. Os juvenis começam a voar por volta dos 60 – 70 dias de idade e cerca de um mês após o primeiro voo, a maioria torna-se independente e deixa o ninho.

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Nas árvores podem-se ver vários ninhos de cegonha-branca.

Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Catry, P., Costa, H., Elias, G., and Matias, R. (2010). Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. (Lisboa: Assírio & Alvim).
Svensson, L. (2012). Guia de Aves (2º edição). Assírio & Alvim, Porto.
http://naturlink.sapo.pt/Natureza-e-Ambiente/Fichas-de-Especies/content/Cegonha-branca-companheira-antiga-das-populacoes-humanas?bl=1&viewall=true#Go_1
http://www.avesdeportugal.info/ciccic.html
http://www.iucnredlist.org/details/22697691/0

Evolução: novas espécies, evidências e importância (Parte II)

No artigo anterior foi dada uma perspetiva histórica de como surgiu a teoria da evolução e como ocorria este processo a partir da seleção natural. Nesta segunda parte é explicado como surgem as novas espécies, enumeradas as evidências a favor da evolução e o porquê da importância em entender os processos evolutivos.

Como se formam novas espécies
Todas as espécies do planeta, quer sejam bactérias, mamíferos, aves, etc., partilham um ancestral comum numa dada altura da história da vida. Por exemplo, o ancestral comum do Homem e do periquito (Fig. 2), que viveu há cerca de 310 milhões de anos, dividiu-se em duas espécies distintas, seguindo cada uma caminhos diferentes. Não sabemos ao certo qual era o aspeto deste animal, mas não estaremos muito longe da verdade se imaginarmos um animal parecido com um lagarto, de corpo espalmado. Quando a espécie se dividiu em duas subpopulações, estas seriam idênticas e podiam reproduzir-se entre si e gerar descendentes férteis. No entanto, estas duas subpopulações não podiam gerar espécies diferentes se os seus indivíduos continuassem a cruzar-se entre si, pois os dois pools de genes acabariam por se misturar, impossibilitando a divergência.

Figura 1 – Árvore filogenética simplificada dos mamíferos, répteis e aves. O ancestral comum do Homem e periquito situa-se no circulo amarelo.

Não se sabe exatamente como esta bifurcação aconteceu, mas podemos dizer com confiança que as duas subpopulações ficaram de alguma forma isoladas reprodutivamente. Este isolamento é conseguido por barreiras geográficas, como, por exemplo, o surgimento de uma montanha que separa duas populações, ou o aparecimento de um rio. Assim, as duas populações tiveram que ficar separadas uma da outra o tempo suficiente para que quando se voltassem a juntar (caso acontecesse), tivessem divergido tanto que já não conseguiriam cruzar-se, ou se o fizessem não gerariam descendência fértil. Podemos questionar: quanto tempo é suficiente para que isto aconteça? Bem, se as populações estiveram sujeitas a pressões seletivas fortes e contrastantes, pode ter sido uma questão de alguns séculos, ou até menos. Por exemplo, uma das populações pode ter passado de carnívora a frugívora porque os frutos seriam o alimento mais abundante e a outra de carnívora a insetívora porque os insetos abundavam. Assim, podemos assumir que o isolamento reprodutor é determinante na formação de novas espécies.
Mesmo que as condições (pressões seletivas) de ambos os lados da barreira sejam idênticas, dois pools de genes da mesma espécie separados geograficamente acabam por divergir um do outro, até deixar de ser possível a reprodução entre os dois. Isto é conseguido pela acumulação aleatória de variações nos dois pools de genes, processo que é conhecido como deriva genética. Neste caso, ao contrário do anterior, a seleção natural não entra em cena de uma forma tão pronunciada, sendo um processo mais lento e menos comum.

Provas a favor da evolução
A evolução é um processo lento e gradual, que geralmente não pode ser presenciado durante o tempo de uma vida humana. Isto fez com que muitas pessoas, na maior parte dos casos encorajadas pela religião, rejeitassem um facto tão real como o heliocentrismo. Porque falo em facto? Diria que já temos provas suficientes para o fazer e, por isso, segue um resumo das evidências que suportam a teoria da evolução por seleção natural:

Paleontologia: o registo fóssil (Fig. 2) mostra informação detalhada ao longo do tempo das mudanças nos seres vivos. O processo evolutivo das baleias é um dos mais bem documentados, havendo registos fósseis de várias fases desse desenvolvimento.

Figura 2 [Foto retirada de: http://www.freeimages.com/photo/1332688%5D – Exemplar de um peixe fossilizado.

Anatomia comparada: é o estudo da comparação de estruturas (ex. esqueletos) entre espécies diferentes. Ao camparmos a estrutura óssea dos membros anteriores do morcego e do Homem, vemos que existe uma enorme semelhança, embora tenham funções completamente opostas. Apenas a partilha de um ancestral comum entres estas duas espécies explicará esta similaridade.

Biogeografia: é o estudo da distribuição das espécies de acordo com espaço geográfico e com o tempo geológico. Podemos supor que se a evolução for verdadeira deveríamos encontrar grupos de organismos relacionados em regiões geográficas também próximas. Isto é comprovado quando se comparam as distribuições de organismos atuais ou dos que viveram no passado, uma vez que as espécies estão distribuídas pelo planeta Terra segundo um padrão que reflete as suas relações genéticas.

Embriologia comparativa: esta deverá ser a evidência a favor da evolução mais esclarecedora. Ao compararmos um embrião humano, de uma ave e de um peixe podemos ver que ao longo do seu desenvolvimento, principalmente nas fases iniciais, apresentam muitas similaridades que sugerem um ancestral comum.

Bioquímica: os processos bioquímicos que ocorrem dentro das células são incrivelmente parecidos entre todos os seres vivos, mostrando que todos os organismos terrestres têm uma ancestralidade comum.

Biologia molecular: todos os organismos conhecidos até hoje têm como base funcional o DNA. Para além disso, quando se compara sequências genéticas de diferentes espécies, por muito distantes que sejam, encontra-se sempre alguma similaridade entre algumas sequências. Quanto mais aparentadas forem duas espécies mais similaridades vão partilhar no seu código genético, do que com qualquer outra mais afastada.

Datação radiométrica: permite uma medição absoluta da idade de fósseis ou rochas a partir da proporção de isótopos presentes na amostra. Esta técnica permitiu calcular a idade da Terra, cerca de 4,5 mil milhões de anos, idade que mostra ser suficiente para a formação de vida, para a sua evolução e para originar todas as formas de vida atuais (e as que se já existiram). Esta datação precisa permitiu também ver que existe uma sucessão evolutiva nos fósseis: como seria esperado dentro de um certo grupo, o fóssil mais antigo é menos parecido com o mais recente, mas à medida que se analisam fósseis mais recentes as similaridades vão aumentando progressivamente.

Entender a evolução é importante
Perceber a evolução ajuda a resolver muitos dos problemas que têm impacto na nossa vida, principalmente ao nível da medicina, da conservação da natureza e da agricultura.
Para nos mantermos um passo à frente de muitas das doenças, é necessário perceber os processos evolutivos dessa doença e/ou dos organismos que a causam. Um bom exemplo são as doenças hereditárias em pessoas, em que os investigadores estudam a história evolutiva da doença, de forma a entender como pode ser combatida/controlada.
O entendimento dos processos evolutivos também é crucial na conservação das espécies, uma vez que as condições ambientais e, por isso, os próprios hábitos dos seres vivos estão em constante mudança. Com as alterações climáticas é importante saber como a distribuição das espécies irá evoluir e como os seus hábitos alimentares se vão modificando. Ignorando a teoria evolutiva poderíamos afirmar que enquanto houver indivíduos reprodutores de uma espécie apenas precisaríamos de alguns para iniciar uma nova população, mas segundo a teoria da evolução a história é outra. Populações muito pequenas enfrentam dois perigos: depressão por endogamia e baixa variabilidade genética, o que pode impossibilitar a recuperação dessa população, apesar dos maiores esforços para a preservar.
Na agricultura tem-se verificado alguns problemas ao longo da história humana. Muitas das pragas evoluem quando expostas a pesticidas, tornando-se resistentes a estes químicos. Por isso, é importante perceber como isto acontece e tentar encontrar alternativas.

Atualmente existem cerca de 8,7 milhões de espécies no nosso planeta e estima-se que 99% de todas as espécies que já existiram estejam extintas. Toda esta variedade foi fruto de um único ancestral comum e foi a partir desta espécie que se formaram todas as adaptações que vemos nos fósseis e nos organismos atuais.
Para aprofundar mais este tema, recomendo vivamente estes dois livros: “A evidência da evolução: Porque é que Darwin tinha razão” de Jerry A. Coyne e “O Espectáculo da Vida. A Prova da Evolução” de Richard Dawkins.

Referências
Dawkins, R. (2009). O Espectáculo da Vida. A Prova da Evolução. Versão Portuguesa. Casa das Letras
Coyne, J.A. (2012). A Evidência da Evolução. Versão Portuguesa: Porque é que Darwin tinha razão. Tinta da China
http://www.dummies.com/how-to/content/what-evidence-supports-the-theory-of-evolution.html
http://evolution.berkeley.edu/evolibrary/article/medicine_06

Morcego-de-ferradura-grande (Rhinolophus ferrumequinum)

O morcego-de-ferradura-grande (Rhinolophus ferrumequinum) é o maior morcego-de-ferradura existente na Europa. Está classificado com o estatuto “Vulnerável” em Portugal e, por isso, é urgente que se tomem medidas para a sua proteção. 

[© Francisco Amorim, todos os direitos reservados] – Adulto de morcego-de-ferradura-grande.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Chiroptera
Família: Rhinolophidae
Género: Rhinolophus
Espécie: Rhinolophus ferrumequinum

Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Vulnerável” (VU), a espécie tem uma população pequena (inferior a 10.000 indivíduos maturos) e admite-se um declínio contínuo do número de indivíduos, assim como da qualidade do habitat. À escala global está classificado como “Pouco Preocupante” (LC) pela IUCN.
O morcego-de-ferradura-grande é uma espécie que ocorre sobretudo na Eurásia temperada de forma mais ou menos contínua, desde a Península Ibérica até ao Japão, e no Norte de África. Em Portugal é claramente mais comum no Norte e Centro, encontrando-se esporadicamente no Algarve (ver mapa de distribuição aqui).
É uma espécie ubiquista que parece utilizar qualquer meio, mas prefere zonas densamente florestadas com zonas de pastagens e com disponibilidade de água. Também pode ser encontrada em áreas calcárias e em locais habitados pelo Homem.
Abriga-se tradicionalmente em grutas, nas quais se reproduz, embora também possa utilizar os telhados de celeiros, igrejas e sótãos. Durante os meses mais frios, hiberna no fundo de poços, minas, grutas e estruturas humanas, onde as temperaturas não são inferiores a 7-10°C.
Este morcego é sedentário e noturno, fazendo apenas pequenas deslocações para se alimentar (cerca de 8 km) e deslocações dos locais de descanso de inverno para os de verão (geralmente entre 20 e 30 km, mas o máximo registado foi de 180 km).
Normalmente, o morcego-de-ferradura-grande sai do abrigo 50 minutos depois do pôr-do-sol para se alimentar pela noite fora, descansando por vezes próximo do local de alimentação. Hiberna de setembro/outubro a abril, interrompendo esta inatividade 2 a 3 vezes por mês para se alimentar, caso as condições atmosféricas sejam favoráveis.
Muitas vezes caça a partir de um poleiro para uma melhor localização das presas, que se forem grandes demais, depois de as caçar, volta para o local de partida para se alimentar. Bebe durante voos baixos enquanto paira.
Emite sons relativamente agudos, que podem ser fortes chilreios vindos das colónias de verão. Ecolocação a 80-83 kHz.
Alimentação: a sua dieta é constituída essencialmente por grandes insetos, como borboletas noturnas e coleópteros.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Adulto de morcego-de-ferradura-grande em

Morfologia Externa e Identificação
Comprimento: entre 9,2 – 11,4 cm.
Envergadura: entre 29,0 – 35,5 cm.
Peso: entre 14,0 – 34,0 g.
O morcego-de-ferradura-grande, apesar de ter tamanho médio, é o maior morcego-de-ferradura da Europa. O dorso é castanho-arruivado e as partes inferiores são mais claras, desde cinzento-esbranquiçado a amarelo esbranquiçado. Além destas características deve-se ter em atenção a folha nasal para uma correta identificação e distinção de outras espécies parecidas. Tal como as restantes espécies pertencentes ao género Rhinolophus, o morcego-de-ferradura-grande tem o nariz em forma de ferradura, distinguindo-se das demais pela lanceta larga que termina numa ponta saliente, pelo processo conectivo superior curto e arredondado e pelo processo conectivo inferior pontiagudo de perfil. A forma romba e tamanho do processo conectivo superior torna inconfundível esta espécie.
Não existe dimorfismo sexual aparente e os juvenis diferem dos adultos por possuírem o dorso mais acinzentado.
Deixa como indícios de presença, principalmente na primavera e verão, restos de insetos e excrementos debaixo de poleiros nas árvores ou nas entradas dos locais de descanso. Os voos são lentos e agitados, com planagens curtas, geralmente a baixa altura (0,3 – 6 m).

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Pormenor da folha nasal.

Reprodução
As cópulas acontecem normalmente no final de setembro, momento em que os espermatozoides são armazenados no oviduto e útero da fêmea até à ovulação e fertilização em março/abril. Os nascimentos ocorrem desde meados de junho até ao início de agosto, dependendo do local. As fêmeas prenhas, acompanhadas de alguns indivíduos imaturos e não reprodutores de ambos os sexos, formam colónias de criação, que podem conter várias centenas de animais. Os machos adultos vivem em pequenos grupos isolados.
A maturidade sexual é particularmente tardia, nas fêmeas é atingida no terceiro ou quarto ano de idade e nos machos a partir do segundo ano. As fêmeas podem não criar todos os anos, mas quando o fazem têm apenas um ninhada por ano constituída por uma cria.

Nota importante: As populações de morcego-de-ferradura-grande têm diminuído drasticamente ao longo dos anos fruto de enumeras atividades ligadas ao ser humano, tais como: destruição e perturbação de abrigos, destruição de florestas autóctones, poluição, perseguição direta, etc. O facto de esta espécie produzir apenas uma ninhada com uma cria por ano, atingir a maturidade sexual tardiamente (os indivíduos podem morrer antes de se reproduzirem) e serem suscetíveis a temperaturas baixas, dificulta ainda mais a sua conservação.

Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Macdonald, D., and Barret P. (1993). Guias Fapas, Mamíferos de Portugal e Europa. Fapas, Porto.
Rainho, A. (2013) – Atlas dos Morcegos de Portugal Continental. Lisboa: Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.
http://morceguismos.blogspot.pt/
http://umdiadecampo.blogspot.pt/2013/12/chave-dicotomica-simplificada-de.html
http://www.icnf.pt/portal/naturaclas/rn2000/resource/rn-plan-set/mamif/rhi-ferrumequinum
http://www.icnf.pt/portal/naturaclas/rn2000/resource/rn-plan-set/mamif/rhi-ferrumequinum

Extinções de Portugal: Quebra-ossos (Gypaetus barbatus)

Existem alguns documentos que remetem para uma presença histórica do quebra-ossos (Gypaetus barbatus) no nosso país, no entanto, estas informações não são totalmente conclusivas. Este imponente abutre terá existido em praticamente todos os maciços montanhosos da Península Ibérica, encontrando-se atualmente apenas nas montanhas da Andaluzia e Pirenéus.

Figura 1 [© Jan Sevcik, todos os direitos reservados] – Adulto com um osso no bico.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Accipitriformes
Família: Accipitridae
Género: Gypaetus
Espécie: Gypaetus barbatus

Distribuição Mundial
O quebra-ossos tem uma distribuição mundial alargada, ocorrendo na Europa, Médio Oriente, Centro e Sul da Ásia e Norte, Oeste e Sul de África. Apesar desta grande amplitude de ocorrência, muitas populações encontram-se isoladas, destacando-se as do Médio Oriente e da Ásia com uma distribuição mais contínua.
Na Europa, pelo menos durante os séculos XIX e XX, o quebra-ossos foi perseguido pelo Homem até à extinção em vários locais, dos quais Portugal e Alpes fazem parte. Felizmente hoje, fruto de um projeto de reintrodução bem-sucedido, podemos observar este belíssimo abutre nos Alpes, onde as populações têm prosperado e aumentado. Outro projeto de reintrodução está a acontecer na Andaluzia, parecendo também estar a dar frutos. Nos Pirenéus existe uma população importante, em 2007 era constituída por 119 pares reprodutores, que resistiu à pressão humana ao longo dos anos (ver mapa de distribuição aqui).
Atualmente a população mundial encontra-se em declínio e é composta por 1300-6700 indivíduos maturos. Tendo em conta estes dados a espécie está classificada como “Quase Ameaçada (NT)” pelo IUCN Red List.

Ecologia e Identificação
O quebra-ossos é um abutre enorme, com uma envergadura que varia entre os 2,35 e os 2,75 m. Apresenta asas invulgarmente estreitas e pontiagudas para uma rapina tão grande e, tal como o britango (Neophron percnopterus), possui a cauda cuneiforme. O britango tem uma silhueta parecida com a do quebra-ossos, mas é bem mais pequeno, a cauda é mais curta em proporção (no quebra-ossos é claramente mais comprida do que a largura da asa) e as asas são menos aguçadas.
Os adultos (Fig.1) têm a parte inferior do corpo, pescoço e cachaço de várias tonalidades de amarelo-torrado ou com matizes alaranjadas intensas, que contrastam com o tom escuro da face inferior das asas. A cabeça é esbranquiçada com duas largas linhas negras, que se prolongam desde os olhos até à base do bico, formando “barbichas”. Em voo, com boa luz, é possível notar que as pequenas e médias coberturas infra-alares são mais escuras que as restantes penas da asa. As partes superiores das asas são de um cinzento-chumbo.
Os juvenis (Fig. 2) caracterizam-se por terem o corpo cinzento ou acastanhado, que contrasta com a cabeça por esta ser mais escura. O manto, o uropígio e algumas coberturas são pálidas, enquanto que a restante parte superior é escura. A silhueta também é um pouco diferente, a cauda é mais curta e as asas são mais largas com as pontas mais arredondadas. As aves imaturas atingem o padrão de adulto aos 5 anos, embora possam manter a cabeça escura por mais tempo.

Figura 2 [© Jan Sevcik, todos os direitos reservados] – Juvenil.

A espécie ocupa áreas montanhosas remotas com terreno acidentado, normalmente acima dos 1000 m e preferencialmente locais onde grandes predadores, com a águia-real (Aquila chrysaetos) e o lobo (Canis lupus), estão presentes.
O seu alimento principal são os ossos, que podem representar 85% da sua dieta, conseguindo os nutrientes a partir da medula óssea. Para ingerirem este alimento adquiriram a estratégia de largar os ossos enquanto voam (a 50-80 m de altura), para que se partam ao bater nas rochas (ver vídeo). A carne de mamíferos recém mortos também é importante, sobrepondo-se à carniça de que se alimenta em caso de penúria. O resto da alimentação é composta por tartarugas, tratando-as da mesma forma que os ossos. Na procura de alimento o quebra-ossos consegue percorrer mais de 700 Km num só dia.
Cada casal pode construir vários ninhos de grandes dimensões em grutas ou em fendas profundas de escarpas. Na Europa, as fêmeas põem 1 a 2 ovos entre Dezembro e Setembro e incubam-nos durante 55 a 60 dias. As crias permanecem no ninho cerca de 110 dias. Os quebra-ossos formam casais estáveis para toda a vida.

Distribuição histórica e extinção em Portugal
Há registos já no século XVII que referem o quebra-ossos como residente no nosso país, no entanto, estes documentos não são totalmente conclusivos. Nos finais do século XIX, o rei D. Carlos refere nas suas notas a existência de “águias com barbas” na serra do Marão e que por lá nidificariam. Esta observação é bastante sugestiva, uma vez que a espécie deveria existir naquele tempo em praticamente todos os maciços montanhosos da Península Ibérica. O próprio rei abateu 2 dos indivíduos (um macho e uma fêmea) no vale do Guadiana, por volta de Junho de 1888, que estão conservados no Museu da Universidade de Coimbra. Não se conhecem registos da ocorrência de quebra-ossos em Portugal desde o final do século XIX até 2011. Durante este ano foram feitas observações de 2 aves diferentes, na Beira Interior e no Nordeste Transmontano, provenientes de libertações feitas em Espanha. Nenhuma destas aves permaneceu nosso território, mas tendo em conta o sucesso do projeto de reintrodução espanhol não é de descartar a hipótese de possíveis visitas mais regulares e até de recolonização.

Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L. and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Catry, P., Costa, H., Elias, G., and Matias, R. (2010). Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. (Lisboa: Assírio & Alvim).
García, C.B., Gil, J.A., Alcántara, M., González,J., Cortés, M.R., Bonafonte, J.I. and Arruga, M.V. (2012). The present Pyrenean population of bearded vulture (Gypaetus barbatus): Its genitic characteristics. J.Biosci. 37(4). 689-694
Mingozzi, T. and Balletto, E. (1996). The historical extirpation of the bearded vulture Gypaetus barbatus in the wertern Alps (France – Italy): modelling the impacto f human persecution. Ital. J. Zool. 63 : 371-376
Svensson, L. (2012). Guia de Aves (2º edição). Assírio & Alvim, Porto.
http://www.avesdeportugal.info/gypbar.html
http://www.birdlife.org/datazone/speciesfactsheet.php?id=3370
http://www.iucnredlist.org/details/22695174/0

Lagartixa-do-mato-comum (Psammodromus algirus)

A lagartixa-do-mato-comum (Psammodromus algirus) é uma das lagartixas mais numerosas de Portugal. Pode ser vista facilmente em diferentes habitats, mesmo perto das nossas casas. Alimenta-se de variados invertebrados, tornando-se importante e benéfica no controlo das populações.

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Fêmea de lagartixa-do-mato-comum.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Reptilia
Ordem: Squamata
Família: Lacertidae
Género: Psammodromus
Espécie: Psammodromus algirus

Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Pouco preocupante” (LC). Mundialmente está classificado com o mesmo estatuto, pois apesar de não ter uma distribuição ampla, tolera uma grande variedade de habitats, a população é grande e é improvável que se verifique um declínio que justifique uma categoria mais preocupante.
A lagartixa-do-mato-comum ocorre por toda a Península Ibérica (exceto nas regiões com clima marcadamente atlântico e eurosiberiana), Sudeste de França e Norte de África. Em Portugal pode ser encontrada por todo o território, com exceção de uma área do litoral Norte.
A presença deste lacertídeo depende de habitats com cobertura arbustiva não muito desenvolvida, mas pode ser encontrado numa grande variedade de habitats. Ocorre em dunas costeiras e zonas húmidas adjacentes, pastagens naturais ou artificiais, matos esclerofilos, bosques mediterrânicos com cobertura arbustiva e bosques caducifólios ou de coníferas. Pode ocupar também habitats muito modificados, como pinhais de produção e margens de caminhos. Aparece até aos 1600 m de altitude na Serra da Estrela.
Geralmente esta espécie hiberna durante os meses mais frios do ano, começando o período de atividade na primavera e terminando-o em outubro. Nas áreas mais quentes pode estar ativa durante todo o ano, sobretudo quando se trata de subadultos. Tem como principais predadores variadas espécies de cobras, o sardão (Lacerta lepida), diversas aves e alguns mamíferos, como a raposa (Vulpes vulpes) e gineta (Genetta genetta). A lagartixa-do-mato é rápida e uma excelente trepadora, utilizando estas capacidades, juntamente com a libertação voluntária da cauda, como principais mecanismos de defesa. Esta espécie emite sons, mas ainda não se sabe qual a sua função. Tem uma longevidade relativamente reduzida, variando entre os 5 e os 7 anos.
Em Portugal ocorre apenas subespécie A.a.algirus, de um total de 4 em toda a sua área de distribuição.
Alimentação: alimenta-se sobretudo de invertebrados, como escaravelhos, formigas, gafanhotos, aranhas e pseudoescorpiões. Por vezes, pode alimentar-se de juvenis de outras espécies de lagartixas, ou até mesmo da própria espécie, e de restos de vegetais.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Macho de lagartixa-do-mato-comum.

Identificação
Comprimento: Pode atingir os 30 cm de comprimento total.
A lagartixa-do-mato é uma lagartixa de tamanho médio, que possui escamas corporais claramente imbricadas e carenadas. Tem uma cabeça alta, com aspeto robusto e não possui colar. Dorsalmente e nos flancos predominam tons acastanhados, com duas linhas dorsolaterais amareladas ou esbranquiçadas. Na zona de inserção das patas posteriores e nas faces laterais da cauda possui tonalidades alaranjadas. Lateralmente pode apresentar ainda 1 a 9 manchas azuis, característica que é mais frequente nos machos. O ventre tende a ser esbranquiçado ou bege.
O dimorfismo sexual torna-se evidente durante a época de reprodução, em que os machos apresentam tonalidades alaranjadas ou avermelhadas na zona da garganta e lados da cabeça. Os machos tendem também a ter uma cabeça mais larga e, de uma maneira geral, são mais robustos do que as fêmeas. Por outro lado, as fêmeas possuem linhas dorsolaterais mais contrastadas do que os machos, que nos casos dos indivíduos mais velhos pode haver uniformidade.
Os juvenis são bastante parecidos com os adultos, mas normalmente têm linhas dorsolaterais menos contrastadas e uma coloração alaranjada mais intensa na zona de inserção das patas posteriores e nas zonas laterais da cauda.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Juvenil de lagartixa-do-mato-comum.

Reprodução
A época de reprodução estende-se de abril até julho e as fêmeas efetuam 2 ou, excecionalmente, 3 posturas entre maio e julho. Cada postura é composta por 2 a 11 ovos, que são incubados durante 3 meses (as eclosões ocorrem entre agosto e outubro). A maturidade sexual é atingida no primeiro ou segundo ano de vida.

Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Almeida., N.F., Almeida, P.F., Gonçalves, H., Sequeira, F., and Almeida, J.T.F.F. (2001). Guia FAPAS Anfíbios e Répteis de Portugal. (FAPAS, Porto)
http://www.icnf.pt/portal/naturaclas/patrinatur/atlas-anfi-rept/resource/docs/rep/psammodromus-algirus
http://www.iucnredlist.org/details/61558/0

Evolução: As suas raízes e como funciona (Parte I)

A evolução é um processo com bases simples que acontece a toda a hora na natureza, mas que tem dado muito que falar desde a sua descoberta. É também um tema muito controverso contestado por várias religiões, que vêm o criacionismo (erradamente) como explicação para a grande diversidade  de vida existente no planeta.
Este artigo será dividido em duas partes, uma vez que vários assuntos deverão ser abordados  e tonar-se-ia demasiado longo para apenas uma publicação.

Figura 1 – Foto de Charles Darwin.

O Homem sempre justificou a diversidade de espécies existente no planeta como um acontecimento único de origem sobrenatural. O criacionismo, por incrível que pareça ainda persiste nos dias de hoje e justifica-se com as seguintes ideias: todas as espécies são produto de um ser sobrenatural e nenhuma espécie se modifica ao longo do tempo.
A grande contribuição para o entendimento da evolução veio de um naturalista britânico do séc. XIX, nascido a 12 de Fevereiro de 1809 em Shrewsbury, Charles Robert Darwin (Figura 1). Ao observar a natureza ao seu redor, Darwin começou a questionar a possibilidade de toda a variabilidade de espécies existentes no planeta ter resultado de um único ato de criação. Ao perceber que espécies próximas partilhavam características gerais idênticas, mas com certas modificações adaptativas ao seu ambiente, Darwin desenvolveu umas das teorias mais revolucionárias e controversas da história da humanidade. Mesmo passados mais de 150 anos da publicação de “A Origem das Espécies” a teoria continua a ser contestada, principalmente por grupos religiosos e alguns políticos. Apesar disto, todos os dias surgem provas a favor da evolução mais fortes do que nunca.

Ideias pré-Darwinianas
Antes de Darwin, já existiam algumas ideias de como teria surgido esta grande diversidade de espécies que podemos hoje observar. Em 1555 foi feita uma comparação entre a anatomia do Homem e de um pombo (Figura 2), em que se mostravam as várias homologias entre os diferentes ossos. A existência de estruturas homólogas viria a ser um importante argumento a favor da evolução de Darwin. Mais tarde Carolus Linnaeus (Lineu em português, 1707-1778) desenvolveu o atual sistema de classificação em espécies, que agrupa as espécies de acordo com as suas semelhanças. Embora Lineu não pensasse nisso, este sistema de classificação já assumia processos evolutivos.
Outra personalidade importante foi Lamarck (1744-1829), a primeira pessoa a pensar que a evolução realmente acontece, embora de forma diferente de Darwin. Este entendia que a transformação se dava a nível individual e não a nível populacional, o que implicava uma alteração coordenada de todos os indivíduos de uma população num mesmo sentido. Estas características eram produzidas durante a vida do indivíduo quando o ambiente mudava, ou seja, a necessidade de um órgão em determinado ambiente cria esse órgão e a função modifica-o.

Figura 2 – Comparação da anatomia humana com a de uma ave. Ilustração de 1555.

Darwin e a teoria da evolução
A desejo do pai, Darwin começou os seus estudos em medicina aos 16 anos. Mostrando pouco interesse na área acabou por não concluir o curso e começou a interessar-se mais pelas ciências naturais.
Com apenas 22 anos Charles Darwin embarcou num veleiro da marinha inglesa chamado Beagle. O objetivo desta viagem foi o de cartografar o hemisfério sul, viagem que duraria 5 anos. O capitão do navio, Fitzroy, tinha um grande interesse por ciência avançada, especialmente geologia, levando consigo para a viagem mais de 400 livros que os disponibilizou a Darwin. Foi no início da viagem que Darwin leu os primeiros livros de Charles Lyell “Principles of Geology”, ficando convencido de que o uniformitarismo fornecia o correto entendimento da história geológica da Terra. O saber adquirido a partir dos livros, juntamente com a viagem foram cruciais para o entendimento da evolução. Especialmente importante foram as suas 5 semanas nas Ilhas das Galápagos, onde as suas observações o levaram a compreender quais as causas responsáveis pela evolução dos organismos.

Seleção Natural
Nas Galápagos, Darwin reparou que certas ilhas possuíam as suas próprias espécies/subespécies de tartarugas (Figura 3), de tentilhões e de numerosas plantas e que estas diferentes populações tinham os mesmos hábitos gerais, ocupavam situações análogas e ocupavam o mesmo lugar na economia natural do arquipélago. Assim, questionava-se da origem das diferenças entre estas populações, que estavam claramente relacionadas. Mais tarde viria a concluir que estas populações eram descendentes de um ancestral comum e que os seus descendentes foram gradualmente modificando-se depois de chegarem a cada uma das ilhas.
Darwin deixou o arquipélago convencido de que as diferentes populações das ilhas foram gradualmente modificadas a partir das suas formas ancestrais. Por outras palavras conclui, que estas populações sofreram um processo de evolução. Apesar disto, não conhecia o mecanismo que explicava essas mudanças ao longo do tempo. Contudo, passados 3 anos depois de deixar as Galápagos, um mecanismo plausível de explicar as mudanças evolucionárias surgiu a Darwin. Percebeu que durante a competição por recursos limitados entre indivíduos da mesma população, como alimento ou espaço, alguns indivíduos teriam uma vantagem evolutiva. Assim, propôs que as características que produziam essa vantagem seriam “preservadas” e as características que proporcionavam uma desvantagem seriam “destruídas”. Como consequência deste processo de seleção pelo ambiente, as populações mudariam ao longo do tempo. Apesar de Darwin nesta altura já perceber o processo pelo qual a evolução acontece, demoraria vários anos a formular a sua teoria final.
A teoria da seleção natural de Darwin resume-se no seguinte: 1. há possíveis variações entre indivíduos da mesma espécie. Algumas dessas diferenças são hereditárias. 2. São gerados mais descendentes em cada geração do que o ambiente pode suportar. 3. Alguns indivíduos, devido às suas características físicas e comportamentais têm uma maior hipótese de sobreviverem e de se reproduzirem do que outros indivíduos da mesma população.
Darwin propôs que a sobrevivência e a reprodução diferencial entre indivíduos produzirá mudanças nas populações das espécies ao longo do tempo. Ou seja, a ação do ambiente na variação entre indivíduos de uma população resultará em adaptação, que é um processo evolucionário que altera a anatomia, fisiologia, ou comportamento, resultando num melhoramento dos membros de uma população para viver num ambiente particular.

Figura 3 – Tartaruga-das-galápagos da ilha de Santa Cruz (Chelonoidis nigra porteri). [Foto retirada de http://www.freeimages.com/photo/951694%5D.

No seguinte exemplo pode ver de uma forma mais prática de como a seleção natural funciona:
Em Inglaterra existe uma espécie de borboleta (Biston betularia) que é constituída por indivíduos de duas fases diferentes, fase melânica (escura) e a fase clara. Durante a revolução industrial, devido à grande poluição atmosférica, entre Londres e Manchester as árvores começaram a ficar mais escuras. Em consequência, os indivíduos escuros conseguiam “esconder-se” dos seus predadores mais eficazmente do que as borboletas claras (Figura 4). Assim, os indivíduos melânicos passaram a ser menos caçados, sobrevivendo durante mais tempo e reproduzindo-se mais. Passadas algumas gerações os indivíduos melânicos tornaram-se mais comuns, pois tinham uma vantagem sobre as formas claras, que até ao momento eram as mais frequentes.
Este é um dos exemplos mais conhecidos e mais claros de como a seleção natural pode moldar toda uma população. Neste caso foi a mudança da cor da casca das árvores que atuou como pressão seletiva, uma vez que foi o fator ambiental que favoreceu uma determinada característica (cor escura) em relação à outra (cor clara).

Figura 4 – Representação do efeito da poluição nas populações de borboletas.

Teoria Sintética da Evolução (Neodarwinismo)
Apesar da teoria da evolução fazer todo sentido e estar bem fundamentada, havia o problema de os mecanismos de herança das características não serem conhecidos por Darwin. Em adição, a ideia que persistia na altura sugeria que as características raras, não importando o quão favoráveis eram, desapareceriam da população prevenindo a mudança como consequência. Talvez se Darwin tivesse tido conhecimento do trabalho de Mendel, que foi seu contemporâneo, alguns destes problemas relativos à hereditariedade tivessem sido resolvidos.
Mesmo no início do século XX, embora a ideia da evolução biológica fosse uma já aceite pela comunidade científica, a explicação através da seleção natural apresentava ainda alguns pontos frágeis. Foi entre 1930 e1940 que se verificou a união entre o darwinismo e a genética (Figura 5), resultando no aparecimento, em 1942, de uma teoria denominada Teoria Sintética da Evolução ou Neodarwinismo. Esta engloba duas ideias fundamentais: variabilidade genética e seleção natural. O Neodarwinismo inclui a mutação e a recombinação genética como principais fontes de variabilidade. As mutações são alterações que ocorrem no material genético e que só têm importância para a evolução caso aconteçam em células da linha germinativa (hereditariedade). Apesar das mutações serem a fonte primária de variabilidade genética, a recombinação genética também tem um papel importante, havendo troca de informação genética entre cromossomas homólogos durante a formação dos gâmetas.
Esta teroria pode ser representada da seguinte forma (este é apenas um exemplo para ilustrar o Neodarwinismo, não quer dizer que tenha acontecido exatamente assim):
Uma população de uma espécie de girafa de pescoço curto vivia num habitat em que as árvores eram baixas e, por isso, conseguiam alimentar-se com facilidade das folhas. Devido a alterações no clima as árvores começaram a ficar mais altas e, como consequência, apenas as girafas que possuíam uma mutação que as tornavam também mais altas conseguiam se alimentar devidamente. Estas girafas reproduziam-se mais, passando em maior quantidade os seus genes para as gerações futuras, enquanto que as girafas com o pescoço mais curto, como não sobreviviam nem se reproduziam tanto, foram desaparecendo e os seus genes foram se perdendo com o tempo.

Figura 5 – A genética foi crucial para a explicar algumas questões que Darwin não conseguiu responder.

Na parte II veremos como se formam as espécies e apresentarei as provas a favor da evolução e a importância de perceber os processos evolutivos.

Referências
Dawkins, R. (2009). O Espectáculo da Vida. A Prova da Evolução. Versão Portuguesa. Casa das Letras
Molles, M. (2013). Ecology. Concepts and Applications. Sixth Edition. New York: McGraw-Hill
http://www.livescience.com/474-controversy-evolution-works.html
http://www.sparknotes.com/biography/darwin/section10.rhtml
http://anthro.palomar.edu/evolve/evolve_2.htm
http://origins.swau.edu/papers/evol/marcia1/defaultp.html

Melro-azul (Monticola solitarius)

O melro-azul (Monticola solitarius) é um passeriforme vistoso que pode ser observado em velhos castelos, ruínas ou zonas rochosas. O dimorfismo sexual é muito evidente nesta espécie, uma vez que o macho é azul e a fêmea castanha.

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Melro-azul macho.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Passeriformes
Família: Muscicapidae
Género: Monticola
Espécie: Monticola solitarius
 
Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Pouco preocupante” (LC). Mundialmente está classificado com o mesmo estatuto, uma vez que esta espécie tem uma distribuição extremamente ampla e o tamanho da sua população mundial não se aproxima dos limiares de vulnerabilidade.
O melro-azul está presente no Sul da Europa e da Ásia, no Médio Oriente e em alguns locais de África. Ocorre um pouco por todo o território português, embora seja bastante raro ou até esteja ausente em vastas áreas do litoral norte e centro, assim como em grande parte do Ribatejo e do Alentejo (pode ver o mapa de distribuição aqui).
Surge sobretudo associado, principalmente durante a época de reprodução, a zonas rochosas, a regiões acidentadas, a vales escarpados de rios e à costa marinha. Também pode ocupar pedreiras abandonadas e construções humanas. Em algumas regiões do interior reside em zonas urbanas e é escasso nas regiões montanhosas mais elevadas. As exigências de habitat implica que o melro-azul esteja ausente em áreas desprovidas de zonas rochosas de uma certa dimensão.
As populações nidificantes em Portugal são residentes, no entanto, uma fração desconhecida de aves ibéricas realiza movimentos migratórios pelo menos até ao Norte de África. Tem principalmente hábitos diurnos e é uma espécie cautelosa, mantendo-se muitas vezes escondido.
Em Portugal ocorre a subespécie M. s. solitarius.
Alimentação: sobretudo invertebrados e pequenas lagartixas. No Outono e no Inverno, quando o alimento é mais escasso, também ingere material de origem vegetal.

Morfologia Externa e Identificação
Comprimento: entre 21 – 23 cm.
O melro-azul é um passeriforme de tamanho médio (um pouco mais pequeno do que o melro (Turdus merula)), esguio, de bico comprido e com patas e  íris pretas.
O macho tem uma tonalidade azul-acinzentada e as asas escuras. Os indivíduos no primeiro inverno têm uma cor menos viva do que os adultos, com um padrão vermiculoso escuro, e as coberturas das primárias são pálidas. A fêmea é completamente distinta dos machos, pois é castanho-escura e tem um padrão vermiculoso nas partes inferiores, no entanto, raramente pode apresentar um ténue tom azul no dorso, na parte superior da cauda e nos flancos.
O canto varia um pouco, sendo por vezes idêntico ao do melro-das-rochas (Monticola saxatilis) (ouvir aqui).

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Melro-azul fêmea.

Reprodução
O canto territorial dos machos pode ser ouvido com grande intensidade no mês de fevereiro, prolongando-se pela primavera, embora também possa ser ouvido no outono.
O melro-azul constrói os ninhos em fendas de rochas, pequenas grutas, edifícios ou muros. As posturas são normalmente constituídas por 4 a 5 ovos, a incubação dura entre 12 e 15 dias e as crias começam a voar com cerca de 18 dias de idade. Pode criar duas ninhadas por ano e nas serras de Aire e Candeeiros foi detetada nidificação de abril a julho, no entanto, pouco se sabe sobre a sua biologia de reprodução no nosso país.
 
Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Catry, P., Costa, H., Elias, G., and Matias, R. (2010). Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. (Lisboa: Assírio & Alvim).
Svensson, L. (2012). Guia de Aves (2º edição). Assírio & Alvim, Porto.
http://www.iucnredlist.org/details/22708286/0
http://www.avesdeportugal.info/monsol.html

Anfíbios – às portas da extinção

Os anfíbios são um grupo de animais muito antigo, com raízes na colonização do ambiente terrestre por parte dos vertebrados (Devónico Médio, há cerca de 400 milhões de anos). São também, entre estes os que atualmente se encontram mais ameaçados e em rápido declínio.

Figura 1 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Sapo-comum (Bufo bufo).

Até ao momento já foram descritas cerca de 7387 espécies (http://amphibiaweb.org, 02 de fevereiro de 2015) divididas em três ordens: Gymnophiona (desprovidos de patas e cauda); Caudata (corpo esguio, cabeça e tronco diferenciados e cauda bem desenvolvida) e Anura (tronco encurtado e não apresentam cauda no estado adulto).
A Península Ibérica é um dos locais da Europa com maior diversidade de anfíbios, distinguindo-se pela existência de várias espécies endémicas. As razões desta região conter uma herpetofauna tão particular residem no facto de estar relativamente bem isolada, apresentar uma grande heterogeneidade fisiográfica e ter servido de refúgio a muitas espécies animais e vegetais na última glaciação. Em Portugal, existem 17 espécies de anfíbios das quais 5 são endémicas da Península Ibérica (quase 30% das espécies são endemismos).
Este grupo de animais tem uma importância gigantesca nos ecossistemas em que se inserem, mantendo o seu equilíbrio. Grande parte das espécies são predadoras e controlam as populações de invertebrados, mas também servem de alimento a muitos outros seres vivos.
A destruição e fragmentação de habitat, doenças inoficiosas, poluição, alterações climáticas e introdução de espécies exóticas são alguns dos fatores que ameaçam os anfíbios por todo o planeta. Muitas populações diminuíram mesmo em áreas intactas, o que mostra que estes animais são extremamente sensíveis a qualquer tipo de atividade humana, mesmo que sejam a muitos quilómetros de distância.

Problemas enfrentados pelos anfíbios
Doenças
Certas doenças como a quitridiomicose e a ranavirose têm reduzido de uma forma alarmante as populações e até possivelmente extinguido várias espécies por todo o planeta.
A quitridiomicose é uma doença infeciosa provocada pelo fungo cítrico, Batrachochytrium dendrobatidis, que infecta a pele dos anfíbios. Nos indivíduos afetados, a pele torna-se impermeável a eletrólitos como o sódio e o potássio, dificultado a sua passagem. Este desequilíbrio está normalmente associado a potenciais paragens cardíacas em humanos, verificando-se o mesmo desfecho nestes animais. Para agravar o problema, sabe-se que a prevalência da doença é extremamente alta fora do seu local de origem e raramente os indivíduos afetados sobrevivem.
Em 1938 no continente africano foi descoberto na espécie Xenopus laevis o primeiro caso conhecido, sendo a doença endémica desta região. Com o comércio de anfíbios a quitridiomicose tem-se espalhado por todos os continentes, exceto Antártida, e é sabido ter um carácter patogénico para pelo menos 508 espécies. O surto mais grave da doença ocorreu na América Neotropical, uma vez que 110 espécies de Atelopus spp. extinguiram-se (67%) e notou-se um rápido e acentuado declínio da diversidade em 8 famílias de sapos e salamandras em El Cope, Panama.
Na Europa o fungo distribui-se por uma vasta e irregular área e já foi encontrado em várias espécies.
Este problema também já se fez sentir em Portugal. O exemplo mais problemático ocorreu no Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) em Agosto de 2009, em que centenas de sapos-parteiro (Alytes obstetricans) foram encontrados mortos.
A ranavirose é uma doença provocada por vírus pertencentes ao género Ranavirus e normalmente afeta os anfíbios durante estado larvar. Esta doença de carácter epidémico está associada a mortalidades extremamente altas e é responsável por reduções populacionais por todo Mundo, incluindo Europa tal como já aconteceu no Reino Unido.

Figura 2 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Tritão-de-ventre-laranja (Lissotriton boscai).

Alterações climáticas
Desde a formação do planeta Terra que o clima tem sofrido sucessivas alterações. Atualmente o problema prende-se com o facto de, no último século, o ritmo entre estas variações climáticas ter sofrido uma forte aceleração e a tendência é que tome proporções ainda mais caóticas se não forem tomadas medidas. Esta súbita mudança climatérica impede que os organismos se adaptem às novas condições, resultando na extinção em massa das espécies.
O equilíbrio natural entre a disponibilidade de água e a temperatura são as condições abióticas mais importantes para o fitness e dinâmica das populações de anfíbios. O regime das águas tem, em particular, um papel vital na determinação dos padrões fenológicos da atividade reprodutora, na determinação da distribuição das populações e na prestação de locais com boas condições para reprodução. Uma alteração dos padrões da precipitação e períodos anormalmente longos de secas podem resultar numa diminuição dos locais de reprodução, com um consequente aumento dos níveis de competição e predação. Pode resultar ainda num aumento da vulnerabilidade a doenças.
Uma antecipação da época das chuvas, em ambientes com níveis de sazonalidade elevados, normalmente incentiva os anfíbios a reproduzirem-se mais cedo, resultando numa dissecação dos ovos nos períodos secos que logo se sucedem.
Os impactes das alterações climáticas nos sistemas ecológicos são observados a todos os níveis, desde a nível populacional, a mudanças na distribuição geográfica, culminando na extinção de espécies e rompimento da estrutura e funcionalidade dos ecossistemas.

Figura 3 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Rã-ibérica (Rana iberica)

Alteração do habitat
A alteração direta dos sistemas ecológicos é uma das principais causas da perda de biodiversidade a nível global. Em adição à destruição completa do habitat, há outras mudanças subtis que podem ter consequências particulares para os anfíbios.
Em primeiro lugar, a fragmentação de habitat pode ter impactes importantes sobre características demográficas da população, através de processos de distribuição regional e de metapopulação (a probabilidade de uma população local se extinguir aumenta com a distância entre populações). A rutura de mecanismos de dispersão podem ainda criar alguma redundância ao nível do código genético das populações mais isoladas.
Em segunda análise, a má gestão de áreas florestais muitas vezes leva a uma alteração microclimática, a alterações na humidade do solo e na complexidade do habitat.

Colheita/comércio ilegal
O Mundo está a lidar com uma percentagem sem precedentes de comércio ilegal de animais silvestres, ameaçando reverter décadas de trabalho em conservação. Esta atividade é um grande negócio, sendo comparável ao tráfico de armas e de droga, movimentando milhões de euros.
Os anfíbios são comercializados para a alimentação, como animais de estimação e para medicinas tradicionais. Este negócio ilegal é responsável pelo declínio de várias espécies de anfíbios e muitas têm sido recolhidas em grande número durante séculos. Como resultado, o comércio de animais selvagens é proibido e regulado pela Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora (CITES).
Apesar de toda esta regulamentação, ainda se traficam anfíbios e espécies em perigo de extinção geram especial interesse devido à sua raridade. O tráfico de anfíbios representa uma amaça para, pelo menos, 281 espécies e 153 (54%) destas espécies estão classificadas com o estatuto “Vulnerável”, “Em Perigo”, ou “Criticamente em Perigo”.
Nalguns países da Europa é comum as pernas de rã fazerem parte da gastronomia tradicional. Um exemplo é o caso da espécie Rana escuelenta, que é explorada de uma forma insustentável para a alimentação.

Figura 4 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Rã-verde (Pelophylax perezi).

Contaminação ambiental e espécies exóticas
Certos contaminantes aumentam o período larvar e tornam os juvenis mais suscetíveis à predação e à secagem do charco em que habitam. Assim, se diferentes espécies são sensíveis de forma distinta a poluentes, a abundância relativa das espécies vai ser alterada, rompendo-se o equilíbrio da competitividade e da predação entre espécies, com o consequente declínio das mais sensíveis.
A exposição a contaminantes desregula o sistema endócrino, que pode resultar num mau desenvolvimento (por exemplo, más formações corporais e alteração metabólica) e impossibilita o indivíduo de se reproduzir.
Outro grande problema é a introdução de espécies num dado sistema, que aí nunca pertenceram. Algumas das espécies introduzidas pelo Homem conseguem rapidamente adaptarem-se aos novos ambientes e produzir descendência. Esta fácil adaptação resulta, muitas vezes, na eliminação completa das espécies nativas através da competição por exclusão. As espécies invasoras não só diminuem as populações dentro de uma comunidade, como também podem levá-las à extinção, este é um fator modificador de todo um ecossistema em equilíbrio.
Alguns peixes carnívoros introduzidos nos rios portugueses revelaram-se autenticas pragas para as espécies nativas de anfíbios, pois predam os ovos, as larvas e até os adultos. O mesmo acontece com o lagostim-vermelho-da-Louisiana (Procambarus clarckii), que foi introduzido em meados do século XX em Portugal e já se distribui por todo o território.

Cabe-nos a nós reverter esta situação, uma vez que somos os responsáveis por este declínio assustador nas populações de anfíbios. Este é um problema sério que pode culminar numa desregulação dos ecossistemas, afetando também o ser humano. Desta forma, uma gestão e conservação consciencializada a nível mundial são cruciais para garantir a sustentabilidade dos sistemas biológicos.

Referências
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