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Anfíbios – às portas da extinção

Os anfíbios são um grupo de animais muito antigo, com raízes na colonização do ambiente terrestre por parte dos vertebrados (Devónico Médio, há cerca de 400 milhões de anos). São também, entre estes os que atualmente se encontram mais ameaçados e em rápido declínio.

Figura 1 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Sapo-comum (Bufo bufo).

Até ao momento já foram descritas cerca de 7387 espécies (http://amphibiaweb.org, 02 de fevereiro de 2015) divididas em três ordens: Gymnophiona (desprovidos de patas e cauda); Caudata (corpo esguio, cabeça e tronco diferenciados e cauda bem desenvolvida) e Anura (tronco encurtado e não apresentam cauda no estado adulto).
A Península Ibérica é um dos locais da Europa com maior diversidade de anfíbios, distinguindo-se pela existência de várias espécies endémicas. As razões desta região conter uma herpetofauna tão particular residem no facto de estar relativamente bem isolada, apresentar uma grande heterogeneidade fisiográfica e ter servido de refúgio a muitas espécies animais e vegetais na última glaciação. Em Portugal, existem 17 espécies de anfíbios das quais 5 são endémicas da Península Ibérica (quase 30% das espécies são endemismos).
Este grupo de animais tem uma importância gigantesca nos ecossistemas em que se inserem, mantendo o seu equilíbrio. Grande parte das espécies são predadoras e controlam as populações de invertebrados, mas também servem de alimento a muitos outros seres vivos.
A destruição e fragmentação de habitat, doenças inoficiosas, poluição, alterações climáticas e introdução de espécies exóticas são alguns dos fatores que ameaçam os anfíbios por todo o planeta. Muitas populações diminuíram mesmo em áreas intactas, o que mostra que estes animais são extremamente sensíveis a qualquer tipo de atividade humana, mesmo que sejam a muitos quilómetros de distância.

Problemas enfrentados pelos anfíbios
Doenças
Certas doenças como a quitridiomicose e a ranavirose têm reduzido de uma forma alarmante as populações e até possivelmente extinguido várias espécies por todo o planeta.
A quitridiomicose é uma doença infeciosa provocada pelo fungo cítrico, Batrachochytrium dendrobatidis, que infecta a pele dos anfíbios. Nos indivíduos afetados, a pele torna-se impermeável a eletrólitos como o sódio e o potássio, dificultado a sua passagem. Este desequilíbrio está normalmente associado a potenciais paragens cardíacas em humanos, verificando-se o mesmo desfecho nestes animais. Para agravar o problema, sabe-se que a prevalência da doença é extremamente alta fora do seu local de origem e raramente os indivíduos afetados sobrevivem.
Em 1938 no continente africano foi descoberto na espécie Xenopus laevis o primeiro caso conhecido, sendo a doença endémica desta região. Com o comércio de anfíbios a quitridiomicose tem-se espalhado por todos os continentes, exceto Antártida, e é sabido ter um carácter patogénico para pelo menos 508 espécies. O surto mais grave da doença ocorreu na América Neotropical, uma vez que 110 espécies de Atelopus spp. extinguiram-se (67%) e notou-se um rápido e acentuado declínio da diversidade em 8 famílias de sapos e salamandras em El Cope, Panama.
Na Europa o fungo distribui-se por uma vasta e irregular área e já foi encontrado em várias espécies.
Este problema também já se fez sentir em Portugal. O exemplo mais problemático ocorreu no Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) em Agosto de 2009, em que centenas de sapos-parteiro (Alytes obstetricans) foram encontrados mortos.
A ranavirose é uma doença provocada por vírus pertencentes ao género Ranavirus e normalmente afeta os anfíbios durante estado larvar. Esta doença de carácter epidémico está associada a mortalidades extremamente altas e é responsável por reduções populacionais por todo Mundo, incluindo Europa tal como já aconteceu no Reino Unido.

Figura 2 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Tritão-de-ventre-laranja (Lissotriton boscai).

Alterações climáticas
Desde a formação do planeta Terra que o clima tem sofrido sucessivas alterações. Atualmente o problema prende-se com o facto de, no último século, o ritmo entre estas variações climáticas ter sofrido uma forte aceleração e a tendência é que tome proporções ainda mais caóticas se não forem tomadas medidas. Esta súbita mudança climatérica impede que os organismos se adaptem às novas condições, resultando na extinção em massa das espécies.
O equilíbrio natural entre a disponibilidade de água e a temperatura são as condições abióticas mais importantes para o fitness e dinâmica das populações de anfíbios. O regime das águas tem, em particular, um papel vital na determinação dos padrões fenológicos da atividade reprodutora, na determinação da distribuição das populações e na prestação de locais com boas condições para reprodução. Uma alteração dos padrões da precipitação e períodos anormalmente longos de secas podem resultar numa diminuição dos locais de reprodução, com um consequente aumento dos níveis de competição e predação. Pode resultar ainda num aumento da vulnerabilidade a doenças.
Uma antecipação da época das chuvas, em ambientes com níveis de sazonalidade elevados, normalmente incentiva os anfíbios a reproduzirem-se mais cedo, resultando numa dissecação dos ovos nos períodos secos que logo se sucedem.
Os impactes das alterações climáticas nos sistemas ecológicos são observados a todos os níveis, desde a nível populacional, a mudanças na distribuição geográfica, culminando na extinção de espécies e rompimento da estrutura e funcionalidade dos ecossistemas.

Figura 3 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Rã-ibérica (Rana iberica)

Alteração do habitat
A alteração direta dos sistemas ecológicos é uma das principais causas da perda de biodiversidade a nível global. Em adição à destruição completa do habitat, há outras mudanças subtis que podem ter consequências particulares para os anfíbios.
Em primeiro lugar, a fragmentação de habitat pode ter impactes importantes sobre características demográficas da população, através de processos de distribuição regional e de metapopulação (a probabilidade de uma população local se extinguir aumenta com a distância entre populações). A rutura de mecanismos de dispersão podem ainda criar alguma redundância ao nível do código genético das populações mais isoladas.
Em segunda análise, a má gestão de áreas florestais muitas vezes leva a uma alteração microclimática, a alterações na humidade do solo e na complexidade do habitat.

Colheita/comércio ilegal
O Mundo está a lidar com uma percentagem sem precedentes de comércio ilegal de animais silvestres, ameaçando reverter décadas de trabalho em conservação. Esta atividade é um grande negócio, sendo comparável ao tráfico de armas e de droga, movimentando milhões de euros.
Os anfíbios são comercializados para a alimentação, como animais de estimação e para medicinas tradicionais. Este negócio ilegal é responsável pelo declínio de várias espécies de anfíbios e muitas têm sido recolhidas em grande número durante séculos. Como resultado, o comércio de animais selvagens é proibido e regulado pela Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora (CITES).
Apesar de toda esta regulamentação, ainda se traficam anfíbios e espécies em perigo de extinção geram especial interesse devido à sua raridade. O tráfico de anfíbios representa uma amaça para, pelo menos, 281 espécies e 153 (54%) destas espécies estão classificadas com o estatuto “Vulnerável”, “Em Perigo”, ou “Criticamente em Perigo”.
Nalguns países da Europa é comum as pernas de rã fazerem parte da gastronomia tradicional. Um exemplo é o caso da espécie Rana escuelenta, que é explorada de uma forma insustentável para a alimentação.

Figura 4 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Rã-verde (Pelophylax perezi).

Contaminação ambiental e espécies exóticas
Certos contaminantes aumentam o período larvar e tornam os juvenis mais suscetíveis à predação e à secagem do charco em que habitam. Assim, se diferentes espécies são sensíveis de forma distinta a poluentes, a abundância relativa das espécies vai ser alterada, rompendo-se o equilíbrio da competitividade e da predação entre espécies, com o consequente declínio das mais sensíveis.
A exposição a contaminantes desregula o sistema endócrino, que pode resultar num mau desenvolvimento (por exemplo, más formações corporais e alteração metabólica) e impossibilita o indivíduo de se reproduzir.
Outro grande problema é a introdução de espécies num dado sistema, que aí nunca pertenceram. Algumas das espécies introduzidas pelo Homem conseguem rapidamente adaptarem-se aos novos ambientes e produzir descendência. Esta fácil adaptação resulta, muitas vezes, na eliminação completa das espécies nativas através da competição por exclusão. As espécies invasoras não só diminuem as populações dentro de uma comunidade, como também podem levá-las à extinção, este é um fator modificador de todo um ecossistema em equilíbrio.
Alguns peixes carnívoros introduzidos nos rios portugueses revelaram-se autenticas pragas para as espécies nativas de anfíbios, pois predam os ovos, as larvas e até os adultos. O mesmo acontece com o lagostim-vermelho-da-Louisiana (Procambarus clarckii), que foi introduzido em meados do século XX em Portugal e já se distribui por todo o território.

Cabe-nos a nós reverter esta situação, uma vez que somos os responsáveis por este declínio assustador nas populações de anfíbios. Este é um problema sério que pode culminar numa desregulação dos ecossistemas, afetando também o ser humano. Desta forma, uma gestão e conservação consciencializada a nível mundial são cruciais para garantir a sustentabilidade dos sistemas biológicos.

Referências
http://naturlink.sapo.pt
http://worldwildlife.org
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