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Floresta Autóctone: história, importância e adversidades

A floresta autóctone portuguesa surgiu como consequência de fatores como o clima e a posição geográfica. Uma floresta autóctone é uma floresta com árvores originárias de uma determinada região. Isto quer dizer que essas árvores não foram introduzidas pelo Homem, mas sim apareceram naturalmente durante o desenvolvimento destes ecossistemas.

Breve história da floresta portuguesa
Ao longo da história da Terra o clima foi mudando, alterando também a composição específica dos diferentes ecossistemas do planeta. Durante o pleistoceno contam-se inúmeros avanços e recuos dos gelos continentais (glaciações) e, por isso, o nosso território esteve coberto de florestas diferentes das atuais. Antes da última glaciação (Würm) Portugal apresentava um clima subtropical húmido e estava coberto por uma floresta de lenhosas sempre-verdes (Laurissilva), comum à que se observa nos dias de hoje nos Açores, Madeira e Canárias. A floresta Laurissilva é assim designada, pois apresenta várias espécies pertencentes à família Lauraceae, como o loureiro (Laurus nobilis e Laurus azorica), o barbuzano (Apollonias barbujana), entre outras.
Durante a última glaciação, devido às baixas temperaturas, a floresta Laurissilva praticamente desapareceu em Portugal e no resto da Europa, restando nos dias de hoje apenas algumas espécies. Estas florestas foram substituídas por uma cobertura florestal semelhante á atual taiga que circunda a parte continental norte do planeta. O pinheiro-de-casquinha (Pinus sylvestris) é disso testemunho e ainda pode ser encontrado nalgumas zonas montanhosas mais frias do país.
Com o aquecimento do clima começaram a aparecer espécies pertencentes à família das fagáceas, como os carvalhos (Quercus sp.) e o castanheiro (Castanea sativa) e outras lenhosas caducifólias (Fig. 1). Atualmente o litoral Norte do país apresenta um clima em que predomina o bioma “Floresta temperada caducifólia”, enquanto que no resto do país predomina o bioma “Floresta e matagal de esclerófilas mediterrânicas”.

Figura 1 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Nesta imagem temos um exemplo de uma floresta onde predomina o carvalho-alvarinho (Quercus robur).

A importância da floresta autóctone
A floresta autóctone tem uma importância enorme não só para a fauna, mas também para o próprio Homem. Estas amenizam o clima e regulam o ciclo da água e a sua qualidade. Têm a capacidade de conservar água e, por isso, estão muito menos suscetíveis e mais resistentes a incêndios, também são importantes na formação e qualidade dos solos. Ajudam a manter a fertilidade do espaço rural (contribuindo com matéria orgânica), o equilíbrio das paisagens e a diversidade dos recursos genéticos e proporcionam bens importantes para o Homem (Fig. 2), tais como: bens lenhosos (madeira e cortiça) e bens não-lenhosos (frutos silvestres, plantas medicinais e aromáticas, cogumelos, mel, pastoreio, caça, etc).
A fauna também beneficia destes ecossistemas, uma vez que servem de refúgio e proporcionam alimento, sendo a biodiversidade muito mais elevada do que em florestas constituídas por plantas invasoras.

Figura 2 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – As florestas autóctones disponibilizam-nos diversos bens que são importantes para as nossas vidas.

Problema das plantas invasoras
Muitas das espécies existentes em Portugal foram transportadas dos seus habitats naturais para o nosso território pelo que são denominadas de plantas exóticas. Nem todas as plantas exóticas são consideradas invasoras. Para serem consideradas como tal, normalmente, devem apresentar um crescimento rápido e/ou elevada dispersão e produção de sementes, comprometer a viabilidade e os serviços de ecossistema das espécies autóctones e não apresentarem inimigos naturais. Ou seja, são capazes de se reproduzir por sementes ou vegetativamente de uma forma exponencial sem serem controladas naturalmente. É importante reter que nem todas as plantas exóticas são invasoras e existem alguns exemplos no nosso país (como a tília (Tilia spp.), o cipreste-português (Cupressus lusitanica)) que existem em equilíbrio com a floresta natural.
No entanto, a maior parte das plantas invasoras têm um efeito extremamente negativo nos ecossistemas e até mesmo no nosso bem-estar (podem provocar doenças, por exemplo).
O eucalipto (Eucalyptus globulus) é um dos exemplos mais conhecidos. Esta espécie é responsável pela diminuição da quantidade de água dos lençóis freáticos, pois tem raízes muito profundas e consome elevadas quantidades de água. Também produz manta morta que não é degradada pelos microrganismos que estão presentes nos nossos solos. Como a decomposição é baixa forma-se uma camada de folhas que tornam os solos impermeáveis à água. Desta forma, a água escorre rapidamente provocando grandes inundações e os lençóis freáticos não são alimentados. Os eucaliptais são locais extremamente secos e as suas folhas libertam compostos voláteis inflamáveis, que servem de combustível a grandes incêndios florestais. Ao contrário dos eucaliptais as florestas autóctones diminuem a possibilidade de cheias e de incêndios florestais.
Outras plantas como algumas espécies pertencentes ao género Acacia têm uma produção e dispersão de sementes bastante elevada, resultando em povoamentos florestais extremamente densos, que impossibilitam o crescimento de plantas autóctones.
A nível europeu estima-se que as perdas a nível económico sejam próximas de 10 biliões €/ano. As espécies invasoras são um dos maiores problemas que enfrentamos, não só a nível ambiental mas também a nível económico.

Adversidades enfrentadas pela floresta autóctone portuguesa
A desflorestação, os incêndios e as plantas exóticas são os principais fatores que ameaçam estas florestas. Desde muito cedo que o Homem tem vindo a destruir estes ecossistemas, pelo menos desde os descobrimentos, altura em que se desflorestou grandes áreas de carvalhos para a construção de embarcações. Para cada nau eram necessários entre 2 mil e 4 mil árvores e no total derrubaram-se mais de 5 milhões de carvalhos. Foi assim que se desflorestou grande parte do país, tendo desaparecido muitos dos carvalhais repletos de biodiversidade.
Mais tarde, principalmente no início do século XX, nos locais onde estas florestas existiam foram plantados pinheiros-bravos (Pinus pinaster), que agora têm sido substituídos pelo eucalipto, parecendo não haver espaço para as plantas autóctones.
Este recurso único tem um grande potencial no nosso país e uma vez aproveitado poderia proporcionar um alto desenvolvimento socioeconómico e bem-estar. Por este motivo uma gestão e uma conservação adequadas são de extrema importância, de forma a garantir a manutenção e equilíbrio da biodiversidade (Fig. 3). No entanto, parece que ainda não encontrou o seu lugar nesta sociedade que vive apenas de números.

Figura 3 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Os ecossistema ripícolas são importantes para a qualidade de diversos serviços de ecossistema.

Referências
Paiva, J. A Biodiversidade e a história da Floresta Portuguesa. Centro de Ecologia Funcional. Universidade de Coimbra
http://www.florestacomum.org/floresta-autoctone/historia-da-floresta-portuguesa/
http://invasoras.pt/o-que-sao/
http://www.florestar.net/invasoras/invasoras2.html

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