urso

Extinções de Portugal: O urso-pardo-europeu (Ursus arctos arctos)

O urso-pardo é um grande mamífero, conhecido dos documentários sobre os ecossistemas do Norte da América. Mas este incrível animal pode ser encontrado na Europa e até mesmo na Península Ibérica., mas infelizmente encontra-se extinto de Portugal.
  Fig. 1 – Urso-pardo-europeu

Distribuição Mundial
O urso-pardo é o ursídeo mais amplamente distribuído pelo planeta. Ocorre na parte mais a norte do continente Norte Americano, em certos locais da Europa, Ásia e até no norte de África.
Na Europa, encontramos a subespécie Ursus arctos arctos, estando grande parte das populações isoladas e constituídas por poucos indivíduos. O principal reduto situa-se no Norte da Escandinávia, alcançando a ex-URSS.
Na Península Ibérica, o urso sofreu uma acentuada redução devido à acção directa e indirecta do Homem e encontra-se actualmente circunscrito à Cordilheira Cantábrica (menos de 100 indivíduos) e Pirinéus (cerca 10 indivíduos).
Habita preferencialmente zonas montanhosas com florestas mistas, mas também pode ser encontrado noutros tipos de biótopos, como em zonas de tundra.

Biologia
O urso-pardo-europeu é um grande mamífero com corpo pesado e robusto, pertencente à ordem Carnivora. Apresenta a cauda muito reduzida (6-21mm) e orelhas curtas e arredondadas. A maioria dos ursos são castanhos, mas há alguma variação, existindo indivíduos amarelos-acinzentados ou pretos.
Este animal atinge facilmente 170 cm de comprimento, podendo chegar aos 280 cm. O peso dos machos normalmente compreende-se entre os 100 e os 315 kg, mas poderá ultrapassar este valor; as fêmeas raramente ultrapassam os 200 kg (no video a baixo, podemos ver um macho com 400 kg).
Como indícios da presença destes animais temos pegadas de grandes dimensões, escavações quando se alimentam em formigueiros e ninhos de vespa, marcas de garras em troncos e cepos arrancados de madeira podre.
Durante o Inverno hiberna numa cavidade subterrânea ou numa caverna forrada com vegetação, que constrói antes da chegada dos meses mais frios. No Verão, nos climas mais quentes tais como no sul da Europa, refugia-se em cavidades naturais ou debaixo de árvores para fugir às altas temperaturas. Geralmente tem comportamentos solitários, mas aglomera-se em grandes números juntos dos recursos alimentares. Os machos adultos têm territórios que rodeiam os das fêmeas e que se sobrepõem aos de outros machos. Estes lutam durante a época de reprodução pelas fêmeas.
A dieta é bastante diversificada, consumindo frutos, ervas, insectos e carne.

Distribuição histórica e extinção em Portugal
Não há dúvidas de que o urso fazia parte da fauna portuguesa, mas infelizmente actualmente encontra-se extinto das nossas florestas. Existem várias provas da sua presença, tais como as construções dedicadas à captura de ursos e as dedicadas à protecção dos bens de ataques causados por estes (por ex, colmeias).
As construções com o objectivo de proteger as colmeias eram estruturas robustas e elaboradas, muitas vezes com paredes de 1 m de espessura e mais de 2 m de altura, são as chamadas silhas. A partir da presença numa região destas estruturas, podemos deduzir que o urso já ocorreu nesse mesmo local. Existem 27 concelhos em Portugal onde a presença de silhas está confirmada e 11 onde a presença é provável. A antiga distribuição do urso em Portugal pode ser vista na Figura 2.
A presença do urso também pode ser comprovada por registos documentais, os mais antigos remetem para os séculos XI e XII, e relacionam-se com o facto de a caça grossa estar sujeita ao tributo de condado ou montaria. Esta lei obrigava os caçadores a oferecerem ao rei a parte mais nobre de cada peça de caça maior abatida.
O urso, desde a Idade Média era considerado um dos maiores prémios de caça e era também confrontado para preparação guerreira. Desta forma, foi desde cedo alvo de protecção por parte da monarquia.
Ao longo do século XV esta espécie ainda ocorria a Norte do rio Douro e em vários locais no interior do país, nomeadamente Beira Interior e Alentejo. No entanto, é a partir deste século que a distribuição do urso parece começar a diminuir, principalmente na metade sul, devido à perseguição directa e à destruição de vastas extensões de floresta. Esta destruição de habitat coincidiu com a época dos descobrimentos, sendo grande parte da madeira utilizada para a construção de embarcações. Devido a esta diminuição do número de indivíduos, D. João I proibiu a caça ao urso, mas o povo continuou-o a perseguir pelos prejuízos que estes lhes causavam nas colheitas e no gado. Como resultado, nos finais do século XVI a presença do urso em Portugal é considerada por muitos autores como estando apenas confinada às montanhas fronteiriças do extremo Noroeste, nomeadamente à Serra do Gerês.
A data de extinção do urso em Portugal é um pouco questionável. Documentos do século XVIII indicam que o último urso foi morto em 1650, na Serra do Gerês, mas actualmente considera-se que sobreviveu para além do século XVII.
Em 1835 foi publicado num jornal uma notícia que alude para a programação de uma caçada ao urso na Serra de Montesinho. Além disso, Gabriel Pereira refere que até meados do século XIX ainda existia a espécie, embora de forma irregular nas montanhas do Minho e Trás-os-Montes.
Justo Méndez referre que até 1930 ainda subsistiam alguns exemplares na zona fronteiriça da Serra do Gerês.

 Fig. 2 [retirada de Álvares et al, 2010] – Concelhos com edificação confirmada ou provável de silhas.

Com base nestas informações, o urso-pardo terá ocorrido nas Serras do Norte até meados do século XX. A existência da espécie em Portugal neste século poderá ter tido origem de movimentos dispersivos de indivíduos provenientes de Espanha.
É pouco provável que o urso volte a fazer parte dos ecossistemas portugueses, pelo menos de uma forma estável, pois é uma espécie que necessita de muito espaço de zonas naturais. Talvez no futuro as questões ambientais sejam levadas mais a sério e se criem condições para este animal magnífico proliferar no Norte do país.

Bibliografia
http://www.iucnredlist.org/details/41688/0
Macdonald, D. e outros. 1993. Guias Fapas, Mamíferos de Portugal e Europa. Fapas
Álvares, F., Jr. and Domingues, J. (2010). Presença histórica do urso em Portugal e testemunhos da sua relação com as comunidades rurais.

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