Lagartixa-do-mato-comum (Psammodromus algirus)

A lagartixa-do-mato-comum (Psammodromus algirus) é uma das lagartixas mais numerosas de Portugal. Pode ser vista facilmente em diferentes habitats, mesmo perto das nossas casas. Alimenta-se de variados invertebrados, tornando-se importante e benéfica no controlo das populações.

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Fêmea de lagartixa-do-mato-comum.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Reptilia
Ordem: Squamata
Família: Lacertidae
Género: Psammodromus
Espécie: Psammodromus algirus

Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Pouco preocupante” (LC). Mundialmente está classificado com o mesmo estatuto, pois apesar de não ter uma distribuição ampla, tolera uma grande variedade de habitats, a população é grande e é improvável que se verifique um declínio que justifique uma categoria mais preocupante.
A lagartixa-do-mato-comum ocorre por toda a Península Ibérica (exceto nas regiões com clima marcadamente atlântico e eurosiberiana), Sudeste de França e Norte de África. Em Portugal pode ser encontrada por todo o território, com exceção de uma área do litoral Norte.
A presença deste lacertídeo depende de habitats com cobertura arbustiva não muito desenvolvida, mas pode ser encontrado numa grande variedade de habitats. Ocorre em dunas costeiras e zonas húmidas adjacentes, pastagens naturais ou artificiais, matos esclerofilos, bosques mediterrânicos com cobertura arbustiva e bosques caducifólios ou de coníferas. Pode ocupar também habitats muito modificados, como pinhais de produção e margens de caminhos. Aparece até aos 1600 m de altitude na Serra da Estrela.
Geralmente esta espécie hiberna durante os meses mais frios do ano, começando o período de atividade na primavera e terminando-o em outubro. Nas áreas mais quentes pode estar ativa durante todo o ano, sobretudo quando se trata de subadultos. Tem como principais predadores variadas espécies de cobras, o sardão (Lacerta lepida), diversas aves e alguns mamíferos, como a raposa (Vulpes vulpes) e gineta (Genetta genetta). A lagartixa-do-mato é rápida e uma excelente trepadora, utilizando estas capacidades, juntamente com a libertação voluntária da cauda, como principais mecanismos de defesa. Esta espécie emite sons, mas ainda não se sabe qual a sua função. Tem uma longevidade relativamente reduzida, variando entre os 5 e os 7 anos.
Em Portugal ocorre apenas subespécie A.a.algirus, de um total de 4 em toda a sua área de distribuição.
Alimentação: alimenta-se sobretudo de invertebrados, como escaravelhos, formigas, gafanhotos, aranhas e pseudoescorpiões. Por vezes, pode alimentar-se de juvenis de outras espécies de lagartixas, ou até mesmo da própria espécie, e de restos de vegetais.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Macho de lagartixa-do-mato-comum.

Identificação
Comprimento: Pode atingir os 30 cm de comprimento total.
A lagartixa-do-mato é uma lagartixa de tamanho médio, que possui escamas corporais claramente imbricadas e carenadas. Tem uma cabeça alta, com aspeto robusto e não possui colar. Dorsalmente e nos flancos predominam tons acastanhados, com duas linhas dorsolaterais amareladas ou esbranquiçadas. Na zona de inserção das patas posteriores e nas faces laterais da cauda possui tonalidades alaranjadas. Lateralmente pode apresentar ainda 1 a 9 manchas azuis, característica que é mais frequente nos machos. O ventre tende a ser esbranquiçado ou bege.
O dimorfismo sexual torna-se evidente durante a época de reprodução, em que os machos apresentam tonalidades alaranjadas ou avermelhadas na zona da garganta e lados da cabeça. Os machos tendem também a ter uma cabeça mais larga e, de uma maneira geral, são mais robustos do que as fêmeas. Por outro lado, as fêmeas possuem linhas dorsolaterais mais contrastadas do que os machos, que nos casos dos indivíduos mais velhos pode haver uniformidade.
Os juvenis são bastante parecidos com os adultos, mas normalmente têm linhas dorsolaterais menos contrastadas e uma coloração alaranjada mais intensa na zona de inserção das patas posteriores e nas zonas laterais da cauda.

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Juvenil de lagartixa-do-mato-comum.

Reprodução
A época de reprodução estende-se de abril até julho e as fêmeas efetuam 2 ou, excecionalmente, 3 posturas entre maio e julho. Cada postura é composta por 2 a 11 ovos, que são incubados durante 3 meses (as eclosões ocorrem entre agosto e outubro). A maturidade sexual é atingida no primeiro ou segundo ano de vida.

Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Almeida., N.F., Almeida, P.F., Gonçalves, H., Sequeira, F., and Almeida, J.T.F.F. (2001). Guia FAPAS Anfíbios e Répteis de Portugal. (FAPAS, Porto)
http://www.icnf.pt/portal/naturaclas/patrinatur/atlas-anfi-rept/resource/docs/rep/psammodromus-algirus
http://www.iucnredlist.org/details/61558/0

Evolução: As suas raízes e como funciona (Parte I)

A evolução é um processo com bases simples que acontece a toda a hora na natureza, mas que tem dado muito que falar desde a sua descoberta. É também um tema muito controverso contestado por várias religiões, que vêm o criacionismo (erradamente) como explicação para a grande diversidade  de vida existente no planeta.
Este artigo será dividido em duas partes, uma vez que vários assuntos deverão ser abordados  e tonar-se-ia demasiado longo para apenas uma publicação.

Figura 1 – Foto de Charles Darwin.

O Homem sempre justificou a diversidade de espécies existente no planeta como um acontecimento único de origem sobrenatural. O criacionismo, por incrível que pareça ainda persiste nos dias de hoje e justifica-se com as seguintes ideias: todas as espécies são produto de um ser sobrenatural e nenhuma espécie se modifica ao longo do tempo.
A grande contribuição para o entendimento da evolução veio de um naturalista britânico do séc. XIX, nascido a 12 de Fevereiro de 1809 em Shrewsbury, Charles Robert Darwin (Figura 1). Ao observar a natureza ao seu redor, Darwin começou a questionar a possibilidade de toda a variabilidade de espécies existentes no planeta ter resultado de um único ato de criação. Ao perceber que espécies próximas partilhavam características gerais idênticas, mas com certas modificações adaptativas ao seu ambiente, Darwin desenvolveu umas das teorias mais revolucionárias e controversas da história da humanidade. Mesmo passados mais de 150 anos da publicação de “A Origem das Espécies” a teoria continua a ser contestada, principalmente por grupos religiosos e alguns políticos. Apesar disto, todos os dias surgem provas a favor da evolução mais fortes do que nunca.

Ideias pré-Darwinianas
Antes de Darwin, já existiam algumas ideias de como teria surgido esta grande diversidade de espécies que podemos hoje observar. Em 1555 foi feita uma comparação entre a anatomia do Homem e de um pombo (Figura 2), em que se mostravam as várias homologias entre os diferentes ossos. A existência de estruturas homólogas viria a ser um importante argumento a favor da evolução de Darwin. Mais tarde Carolus Linnaeus (Lineu em português, 1707-1778) desenvolveu o atual sistema de classificação em espécies, que agrupa as espécies de acordo com as suas semelhanças. Embora Lineu não pensasse nisso, este sistema de classificação já assumia processos evolutivos.
Outra personalidade importante foi Lamarck (1744-1829), a primeira pessoa a pensar que a evolução realmente acontece, embora de forma diferente de Darwin. Este entendia que a transformação se dava a nível individual e não a nível populacional, o que implicava uma alteração coordenada de todos os indivíduos de uma população num mesmo sentido. Estas características eram produzidas durante a vida do indivíduo quando o ambiente mudava, ou seja, a necessidade de um órgão em determinado ambiente cria esse órgão e a função modifica-o.

Figura 2 – Comparação da anatomia humana com a de uma ave. Ilustração de 1555.

Darwin e a teoria da evolução
A desejo do pai, Darwin começou os seus estudos em medicina aos 16 anos. Mostrando pouco interesse na área acabou por não concluir o curso e começou a interessar-se mais pelas ciências naturais.
Com apenas 22 anos Charles Darwin embarcou num veleiro da marinha inglesa chamado Beagle. O objetivo desta viagem foi o de cartografar o hemisfério sul, viagem que duraria 5 anos. O capitão do navio, Fitzroy, tinha um grande interesse por ciência avançada, especialmente geologia, levando consigo para a viagem mais de 400 livros que os disponibilizou a Darwin. Foi no início da viagem que Darwin leu os primeiros livros de Charles Lyell “Principles of Geology”, ficando convencido de que o uniformitarismo fornecia o correto entendimento da história geológica da Terra. O saber adquirido a partir dos livros, juntamente com a viagem foram cruciais para o entendimento da evolução. Especialmente importante foram as suas 5 semanas nas Ilhas das Galápagos, onde as suas observações o levaram a compreender quais as causas responsáveis pela evolução dos organismos.

Seleção Natural
Nas Galápagos, Darwin reparou que certas ilhas possuíam as suas próprias espécies/subespécies de tartarugas (Figura 3), de tentilhões e de numerosas plantas e que estas diferentes populações tinham os mesmos hábitos gerais, ocupavam situações análogas e ocupavam o mesmo lugar na economia natural do arquipélago. Assim, questionava-se da origem das diferenças entre estas populações, que estavam claramente relacionadas. Mais tarde viria a concluir que estas populações eram descendentes de um ancestral comum e que os seus descendentes foram gradualmente modificando-se depois de chegarem a cada uma das ilhas.
Darwin deixou o arquipélago convencido de que as diferentes populações das ilhas foram gradualmente modificadas a partir das suas formas ancestrais. Por outras palavras conclui, que estas populações sofreram um processo de evolução. Apesar disto, não conhecia o mecanismo que explicava essas mudanças ao longo do tempo. Contudo, passados 3 anos depois de deixar as Galápagos, um mecanismo plausível de explicar as mudanças evolucionárias surgiu a Darwin. Percebeu que durante a competição por recursos limitados entre indivíduos da mesma população, como alimento ou espaço, alguns indivíduos teriam uma vantagem evolutiva. Assim, propôs que as características que produziam essa vantagem seriam “preservadas” e as características que proporcionavam uma desvantagem seriam “destruídas”. Como consequência deste processo de seleção pelo ambiente, as populações mudariam ao longo do tempo. Apesar de Darwin nesta altura já perceber o processo pelo qual a evolução acontece, demoraria vários anos a formular a sua teoria final.
A teoria da seleção natural de Darwin resume-se no seguinte: 1. há possíveis variações entre indivíduos da mesma espécie. Algumas dessas diferenças são hereditárias. 2. São gerados mais descendentes em cada geração do que o ambiente pode suportar. 3. Alguns indivíduos, devido às suas características físicas e comportamentais têm uma maior hipótese de sobreviverem e de se reproduzirem do que outros indivíduos da mesma população.
Darwin propôs que a sobrevivência e a reprodução diferencial entre indivíduos produzirá mudanças nas populações das espécies ao longo do tempo. Ou seja, a ação do ambiente na variação entre indivíduos de uma população resultará em adaptação, que é um processo evolucionário que altera a anatomia, fisiologia, ou comportamento, resultando num melhoramento dos membros de uma população para viver num ambiente particular.

Figura 3 – Tartaruga-das-galápagos da ilha de Santa Cruz (Chelonoidis nigra porteri). [Foto retirada de http://www.freeimages.com/photo/951694%5D.

No seguinte exemplo pode ver de uma forma mais prática de como a seleção natural funciona:
Em Inglaterra existe uma espécie de borboleta (Biston betularia) que é constituída por indivíduos de duas fases diferentes, fase melânica (escura) e a fase clara. Durante a revolução industrial, devido à grande poluição atmosférica, entre Londres e Manchester as árvores começaram a ficar mais escuras. Em consequência, os indivíduos escuros conseguiam “esconder-se” dos seus predadores mais eficazmente do que as borboletas claras (Figura 4). Assim, os indivíduos melânicos passaram a ser menos caçados, sobrevivendo durante mais tempo e reproduzindo-se mais. Passadas algumas gerações os indivíduos melânicos tornaram-se mais comuns, pois tinham uma vantagem sobre as formas claras, que até ao momento eram as mais frequentes.
Este é um dos exemplos mais conhecidos e mais claros de como a seleção natural pode moldar toda uma população. Neste caso foi a mudança da cor da casca das árvores que atuou como pressão seletiva, uma vez que foi o fator ambiental que favoreceu uma determinada característica (cor escura) em relação à outra (cor clara).

Figura 4 – Representação do efeito da poluição nas populações de borboletas.

Teoria Sintética da Evolução (Neodarwinismo)
Apesar da teoria da evolução fazer todo sentido e estar bem fundamentada, havia o problema de os mecanismos de herança das características não serem conhecidos por Darwin. Em adição, a ideia que persistia na altura sugeria que as características raras, não importando o quão favoráveis eram, desapareceriam da população prevenindo a mudança como consequência. Talvez se Darwin tivesse tido conhecimento do trabalho de Mendel, que foi seu contemporâneo, alguns destes problemas relativos à hereditariedade tivessem sido resolvidos.
Mesmo no início do século XX, embora a ideia da evolução biológica fosse uma já aceite pela comunidade científica, a explicação através da seleção natural apresentava ainda alguns pontos frágeis. Foi entre 1930 e1940 que se verificou a união entre o darwinismo e a genética (Figura 5), resultando no aparecimento, em 1942, de uma teoria denominada Teoria Sintética da Evolução ou Neodarwinismo. Esta engloba duas ideias fundamentais: variabilidade genética e seleção natural. O Neodarwinismo inclui a mutação e a recombinação genética como principais fontes de variabilidade. As mutações são alterações que ocorrem no material genético e que só têm importância para a evolução caso aconteçam em células da linha germinativa (hereditariedade). Apesar das mutações serem a fonte primária de variabilidade genética, a recombinação genética também tem um papel importante, havendo troca de informação genética entre cromossomas homólogos durante a formação dos gâmetas.
Esta teroria pode ser representada da seguinte forma (este é apenas um exemplo para ilustrar o Neodarwinismo, não quer dizer que tenha acontecido exatamente assim):
Uma população de uma espécie de girafa de pescoço curto vivia num habitat em que as árvores eram baixas e, por isso, conseguiam alimentar-se com facilidade das folhas. Devido a alterações no clima as árvores começaram a ficar mais altas e, como consequência, apenas as girafas que possuíam uma mutação que as tornavam também mais altas conseguiam se alimentar devidamente. Estas girafas reproduziam-se mais, passando em maior quantidade os seus genes para as gerações futuras, enquanto que as girafas com o pescoço mais curto, como não sobreviviam nem se reproduziam tanto, foram desaparecendo e os seus genes foram se perdendo com o tempo.

Figura 5 – A genética foi crucial para a explicar algumas questões que Darwin não conseguiu responder.

Na parte II veremos como se formam as espécies e apresentarei as provas a favor da evolução e a importância de perceber os processos evolutivos.

Referências
Dawkins, R. (2009). O Espectáculo da Vida. A Prova da Evolução. Versão Portuguesa. Casa das Letras
Molles, M. (2013). Ecology. Concepts and Applications. Sixth Edition. New York: McGraw-Hill
http://www.livescience.com/474-controversy-evolution-works.html
http://www.sparknotes.com/biography/darwin/section10.rhtml
http://anthro.palomar.edu/evolve/evolve_2.htm
http://origins.swau.edu/papers/evol/marcia1/defaultp.html

Melro-azul (Monticola solitarius)

O melro-azul (Monticola solitarius) é um passeriforme vistoso que pode ser observado em velhos castelos, ruínas ou zonas rochosas. O dimorfismo sexual é muito evidente nesta espécie, uma vez que o macho é azul e a fêmea castanha.

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Melro-azul macho.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Passeriformes
Família: Muscicapidae
Género: Monticola
Espécie: Monticola solitarius
 
Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Pouco preocupante” (LC). Mundialmente está classificado com o mesmo estatuto, uma vez que esta espécie tem uma distribuição extremamente ampla e o tamanho da sua população mundial não se aproxima dos limiares de vulnerabilidade.
O melro-azul está presente no Sul da Europa e da Ásia, no Médio Oriente e em alguns locais de África. Ocorre um pouco por todo o território português, embora seja bastante raro ou até esteja ausente em vastas áreas do litoral norte e centro, assim como em grande parte do Ribatejo e do Alentejo (pode ver o mapa de distribuição aqui).
Surge sobretudo associado, principalmente durante a época de reprodução, a zonas rochosas, a regiões acidentadas, a vales escarpados de rios e à costa marinha. Também pode ocupar pedreiras abandonadas e construções humanas. Em algumas regiões do interior reside em zonas urbanas e é escasso nas regiões montanhosas mais elevadas. As exigências de habitat implica que o melro-azul esteja ausente em áreas desprovidas de zonas rochosas de uma certa dimensão.
As populações nidificantes em Portugal são residentes, no entanto, uma fração desconhecida de aves ibéricas realiza movimentos migratórios pelo menos até ao Norte de África. Tem principalmente hábitos diurnos e é uma espécie cautelosa, mantendo-se muitas vezes escondido.
Em Portugal ocorre a subespécie M. s. solitarius.
Alimentação: sobretudo invertebrados e pequenas lagartixas. No Outono e no Inverno, quando o alimento é mais escasso, também ingere material de origem vegetal.

Morfologia Externa e Identificação
Comprimento: entre 21 – 23 cm.
O melro-azul é um passeriforme de tamanho médio (um pouco mais pequeno do que o melro (Turdus merula)), esguio, de bico comprido e com patas e  íris pretas.
O macho tem uma tonalidade azul-acinzentada e as asas escuras. Os indivíduos no primeiro inverno têm uma cor menos viva do que os adultos, com um padrão vermiculoso escuro, e as coberturas das primárias são pálidas. A fêmea é completamente distinta dos machos, pois é castanho-escura e tem um padrão vermiculoso nas partes inferiores, no entanto, raramente pode apresentar um ténue tom azul no dorso, na parte superior da cauda e nos flancos.
O canto varia um pouco, sendo por vezes idêntico ao do melro-das-rochas (Monticola saxatilis) (ouvir aqui).

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Melro-azul fêmea.

Reprodução
O canto territorial dos machos pode ser ouvido com grande intensidade no mês de fevereiro, prolongando-se pela primavera, embora também possa ser ouvido no outono.
O melro-azul constrói os ninhos em fendas de rochas, pequenas grutas, edifícios ou muros. As posturas são normalmente constituídas por 4 a 5 ovos, a incubação dura entre 12 e 15 dias e as crias começam a voar com cerca de 18 dias de idade. Pode criar duas ninhadas por ano e nas serras de Aire e Candeeiros foi detetada nidificação de abril a julho, no entanto, pouco se sabe sobre a sua biologia de reprodução no nosso país.
 
Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Catry, P., Costa, H., Elias, G., and Matias, R. (2010). Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. (Lisboa: Assírio & Alvim).
Svensson, L. (2012). Guia de Aves (2º edição). Assírio & Alvim, Porto.
http://www.iucnredlist.org/details/22708286/0
http://www.avesdeportugal.info/monsol.html

Anfíbios – às portas da extinção

Os anfíbios são um grupo de animais muito antigo, com raízes na colonização do ambiente terrestre por parte dos vertebrados (Devónico Médio, há cerca de 400 milhões de anos). São também, entre estes os que atualmente se encontram mais ameaçados e em rápido declínio.

Figura 1 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Sapo-comum (Bufo bufo).

Até ao momento já foram descritas cerca de 7387 espécies (http://amphibiaweb.org, 02 de fevereiro de 2015) divididas em três ordens: Gymnophiona (desprovidos de patas e cauda); Caudata (corpo esguio, cabeça e tronco diferenciados e cauda bem desenvolvida) e Anura (tronco encurtado e não apresentam cauda no estado adulto).
A Península Ibérica é um dos locais da Europa com maior diversidade de anfíbios, distinguindo-se pela existência de várias espécies endémicas. As razões desta região conter uma herpetofauna tão particular residem no facto de estar relativamente bem isolada, apresentar uma grande heterogeneidade fisiográfica e ter servido de refúgio a muitas espécies animais e vegetais na última glaciação. Em Portugal, existem 17 espécies de anfíbios das quais 5 são endémicas da Península Ibérica (quase 30% das espécies são endemismos).
Este grupo de animais tem uma importância gigantesca nos ecossistemas em que se inserem, mantendo o seu equilíbrio. Grande parte das espécies são predadoras e controlam as populações de invertebrados, mas também servem de alimento a muitos outros seres vivos.
A destruição e fragmentação de habitat, doenças inoficiosas, poluição, alterações climáticas e introdução de espécies exóticas são alguns dos fatores que ameaçam os anfíbios por todo o planeta. Muitas populações diminuíram mesmo em áreas intactas, o que mostra que estes animais são extremamente sensíveis a qualquer tipo de atividade humana, mesmo que sejam a muitos quilómetros de distância.

Problemas enfrentados pelos anfíbios
Doenças
Certas doenças como a quitridiomicose e a ranavirose têm reduzido de uma forma alarmante as populações e até possivelmente extinguido várias espécies por todo o planeta.
A quitridiomicose é uma doença infeciosa provocada pelo fungo cítrico, Batrachochytrium dendrobatidis, que infecta a pele dos anfíbios. Nos indivíduos afetados, a pele torna-se impermeável a eletrólitos como o sódio e o potássio, dificultado a sua passagem. Este desequilíbrio está normalmente associado a potenciais paragens cardíacas em humanos, verificando-se o mesmo desfecho nestes animais. Para agravar o problema, sabe-se que a prevalência da doença é extremamente alta fora do seu local de origem e raramente os indivíduos afetados sobrevivem.
Em 1938 no continente africano foi descoberto na espécie Xenopus laevis o primeiro caso conhecido, sendo a doença endémica desta região. Com o comércio de anfíbios a quitridiomicose tem-se espalhado por todos os continentes, exceto Antártida, e é sabido ter um carácter patogénico para pelo menos 508 espécies. O surto mais grave da doença ocorreu na América Neotropical, uma vez que 110 espécies de Atelopus spp. extinguiram-se (67%) e notou-se um rápido e acentuado declínio da diversidade em 8 famílias de sapos e salamandras em El Cope, Panama.
Na Europa o fungo distribui-se por uma vasta e irregular área e já foi encontrado em várias espécies.
Este problema também já se fez sentir em Portugal. O exemplo mais problemático ocorreu no Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) em Agosto de 2009, em que centenas de sapos-parteiro (Alytes obstetricans) foram encontrados mortos.
A ranavirose é uma doença provocada por vírus pertencentes ao género Ranavirus e normalmente afeta os anfíbios durante estado larvar. Esta doença de carácter epidémico está associada a mortalidades extremamente altas e é responsável por reduções populacionais por todo Mundo, incluindo Europa tal como já aconteceu no Reino Unido.

Figura 2 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Tritão-de-ventre-laranja (Lissotriton boscai).

Alterações climáticas
Desde a formação do planeta Terra que o clima tem sofrido sucessivas alterações. Atualmente o problema prende-se com o facto de, no último século, o ritmo entre estas variações climáticas ter sofrido uma forte aceleração e a tendência é que tome proporções ainda mais caóticas se não forem tomadas medidas. Esta súbita mudança climatérica impede que os organismos se adaptem às novas condições, resultando na extinção em massa das espécies.
O equilíbrio natural entre a disponibilidade de água e a temperatura são as condições abióticas mais importantes para o fitness e dinâmica das populações de anfíbios. O regime das águas tem, em particular, um papel vital na determinação dos padrões fenológicos da atividade reprodutora, na determinação da distribuição das populações e na prestação de locais com boas condições para reprodução. Uma alteração dos padrões da precipitação e períodos anormalmente longos de secas podem resultar numa diminuição dos locais de reprodução, com um consequente aumento dos níveis de competição e predação. Pode resultar ainda num aumento da vulnerabilidade a doenças.
Uma antecipação da época das chuvas, em ambientes com níveis de sazonalidade elevados, normalmente incentiva os anfíbios a reproduzirem-se mais cedo, resultando numa dissecação dos ovos nos períodos secos que logo se sucedem.
Os impactes das alterações climáticas nos sistemas ecológicos são observados a todos os níveis, desde a nível populacional, a mudanças na distribuição geográfica, culminando na extinção de espécies e rompimento da estrutura e funcionalidade dos ecossistemas.

Figura 3 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Rã-ibérica (Rana iberica)

Alteração do habitat
A alteração direta dos sistemas ecológicos é uma das principais causas da perda de biodiversidade a nível global. Em adição à destruição completa do habitat, há outras mudanças subtis que podem ter consequências particulares para os anfíbios.
Em primeiro lugar, a fragmentação de habitat pode ter impactes importantes sobre características demográficas da população, através de processos de distribuição regional e de metapopulação (a probabilidade de uma população local se extinguir aumenta com a distância entre populações). A rutura de mecanismos de dispersão podem ainda criar alguma redundância ao nível do código genético das populações mais isoladas.
Em segunda análise, a má gestão de áreas florestais muitas vezes leva a uma alteração microclimática, a alterações na humidade do solo e na complexidade do habitat.

Colheita/comércio ilegal
O Mundo está a lidar com uma percentagem sem precedentes de comércio ilegal de animais silvestres, ameaçando reverter décadas de trabalho em conservação. Esta atividade é um grande negócio, sendo comparável ao tráfico de armas e de droga, movimentando milhões de euros.
Os anfíbios são comercializados para a alimentação, como animais de estimação e para medicinas tradicionais. Este negócio ilegal é responsável pelo declínio de várias espécies de anfíbios e muitas têm sido recolhidas em grande número durante séculos. Como resultado, o comércio de animais selvagens é proibido e regulado pela Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora (CITES).
Apesar de toda esta regulamentação, ainda se traficam anfíbios e espécies em perigo de extinção geram especial interesse devido à sua raridade. O tráfico de anfíbios representa uma amaça para, pelo menos, 281 espécies e 153 (54%) destas espécies estão classificadas com o estatuto “Vulnerável”, “Em Perigo”, ou “Criticamente em Perigo”.
Nalguns países da Europa é comum as pernas de rã fazerem parte da gastronomia tradicional. Um exemplo é o caso da espécie Rana escuelenta, que é explorada de uma forma insustentável para a alimentação.

Figura 4 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Rã-verde (Pelophylax perezi).

Contaminação ambiental e espécies exóticas
Certos contaminantes aumentam o período larvar e tornam os juvenis mais suscetíveis à predação e à secagem do charco em que habitam. Assim, se diferentes espécies são sensíveis de forma distinta a poluentes, a abundância relativa das espécies vai ser alterada, rompendo-se o equilíbrio da competitividade e da predação entre espécies, com o consequente declínio das mais sensíveis.
A exposição a contaminantes desregula o sistema endócrino, que pode resultar num mau desenvolvimento (por exemplo, más formações corporais e alteração metabólica) e impossibilita o indivíduo de se reproduzir.
Outro grande problema é a introdução de espécies num dado sistema, que aí nunca pertenceram. Algumas das espécies introduzidas pelo Homem conseguem rapidamente adaptarem-se aos novos ambientes e produzir descendência. Esta fácil adaptação resulta, muitas vezes, na eliminação completa das espécies nativas através da competição por exclusão. As espécies invasoras não só diminuem as populações dentro de uma comunidade, como também podem levá-las à extinção, este é um fator modificador de todo um ecossistema em equilíbrio.
Alguns peixes carnívoros introduzidos nos rios portugueses revelaram-se autenticas pragas para as espécies nativas de anfíbios, pois predam os ovos, as larvas e até os adultos. O mesmo acontece com o lagostim-vermelho-da-Louisiana (Procambarus clarckii), que foi introduzido em meados do século XX em Portugal e já se distribui por todo o território.

Cabe-nos a nós reverter esta situação, uma vez que somos os responsáveis por este declínio assustador nas populações de anfíbios. Este é um problema sério que pode culminar numa desregulação dos ecossistemas, afetando também o ser humano. Desta forma, uma gestão e conservação consciencializada a nível mundial são cruciais para garantir a sustentabilidade dos sistemas biológicos.

Referências
http://naturlink.sapo.pt
http://worldwildlife.org
Almeida, N., Almeida, P., Gonçalves, E., Sequeira, F., Teixeira, J. & Almeida, F. (2001). Guia FAPAS Anfíbios e Répteis de Portugal. Porto: FAPAS
Boone, Cowman, D., Davidson, C., Hayes, Hopkins, Relyea, R., Schiesari, L., & Semlitsch, R. (2005). Chapter 6. Evaluating the Role of Environmental. Contamination in Amphibian Population Declines. Pp. 26-31 In: Gascon, C., Collins, J.P., Moore, R.D., Church, D.R., Mackay, J.E., Mendelson, J., (eds.), Amphibian Conservation Action Plan. IUCN/SSC Amphibian Conservation Summit 2005. IUCN, Gland, Switzerland
Carpenter, Dublin, H., Lau, M., G. Syed, McKay, J., & Moore, R. (2005). Chapter 5. Over-harvesting. Pp. 26-31 In: Gascon, C., Collins, J.P., Moore, R.D., Church, D.R., Mackay, J.E., Mendelson, J., (eds.), Amphibian Conservation Action Plan. IUCN/SSC Amphibian Conservation Summit 2005. IUCN, Gland, Switzerland
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Rosa, G., Anza, I., Moreira, P., Conde, J., Martins, F., Fisher, M. & Bosch, J. (2012). Evidence of chytrid-mediated population declines in common midwife toad in Serra da Estrela, Portugal. Anim. Conserv. 1367-9430 (16) : 306 – 315
Schlaepfer, M., Hoover, C., & kenneth Dodd, C. (2005). Challenges in Evaluating the Impact of the Trade in Amphibians and Reptiles on Wild Populations. BioScience 55 (3) : 256 – 264
Trenton, W., Garner, Walker, S., Bosch, J., Hyatt, A., Cunningham, A., & Fisher, M. (2005). Chytrid Fungus in Europe. Emerg Infect Dis. 11 (10) : 1639 – 1641
Vargas, J. M., Real, R. & Guerrero. J. C. (1998). Biogeogt-aphical regions of the Iberian peninsula based on freshwater fish and amphibian distributions. Bcographv (21) : 371 – 382
Weldon, C., Preez, L., Hyatt, A., Muller, R., & Speare, R. (2004). Origin of the Amphibian Chytrid Fungus. Emerg Infect Dis. 10 (12) : 2100 – 2105

Pica-pau-malhado-grande (Dendrocopos major)

O chamamento áspero ou o tamborilar do Pica-pau-malhado-grande (Dendrocopos major) são geralmente os primeiros sinais da sua presença. É o pica-pau mais comum em Portugal e pode ser observado em variados tipos de florestas e até mesmo em parques urbanos e jardins.

[© Jiri Bohdal, todos os direitos reservados] – Pica-pau fêmea adulto a transportar comida para as crias.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Piciformes
Família: Picidae
Género: Dendrocopos
Espécie: Dendrocopos major
 
Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Pouco preocupante” (LC). Mundialmente está classificado com o mesmo estatuto, uma vez que esta espécie tem uma distribuição extremamente ampla e o tamanho da sua população mundial é bastante grande.
Está presente em toda a Europa e no centro do continente asiático (incluindo a China e Japão). Também ocorre na Turquia e no Irão. Distribui-se por todo o território português, mas está ausente em áreas pouco florestadas, como por exemplo as planícies centrais do Baixo Alentejo (pode ver o mapa de distribuição aqui).
O pica-pau-malhado-grande é uma ave típica de habitats florestais e em Portugal ocorre em quase todos os tipos de florestas, embora seja menos abundante em eucaliptais, acaciais e em povoamento jovens de coníferas. Prefere zonas densamente arborizadas, mas pode ocorrer em matagais com árvores dispersas. Ocorre principalmente em, montados, pinhais adultos (de pinheiro-bravo (Pinus pinaster) e de pinheiro-de-casquinha (Pinus sylvestris)) carvalhais e certas matas ripícolas. De uma forma geral parece ser mais numeroso em matas de folhosas do que em pinhais.
É uma espécie residente e sedentária na Península Ibérica, no entanto, pode realizar pequenos movimentos erráticos. Nas áreas mais setentrionais e orientais são migradores eruptivos de curta distância. Tem principalmente hábitos diurnos.
Na Península Ibérica ocorre a subespécie D. m. hispanus.
Alimentação: a sua dieta baseia-se quase exclusivamente em insetos, mas também alimenta-se de sementes (ex. pinhões) principalmente durante o inverno. Ocasionalmente preda ovos e crias de outras aves.

Morfologia Externa e Identificação
Comprimento: entre 23-26 – 26 cm.
Envergadura: entre 38 – 44 cm.
O pica-pau-malhado-grande é facilmente identificado por apresentar a zona da cloaca e do ventre vermelho intenso, nitidamente demarcado do abdómen esbranquiçado. As “costas” são pretas contrastando com uma mancha oval branca em cada um dos ombros. O mesmo acontece nas asas que também são pretas com barras brancas. Na cabeça nota-se uma máscara branca, um “bigode” preto e uma coroa preta nos adultos e vermelha nos juvenis.
Os machos na parte posterior da coroa apresentam uma mancha vermelha, enquanto que as fêmeas apenas apresentam a coroa preta sem vermelho.
As aves do Oeste e Sul têm geralmente as partes inferiores e fronte branco-acastanhadas (mais escuras que os indivíduos das outras regiões) e bico ligeiramente mais fino.
À semelhança dos restantes pica-paus o voo é distintamente ondulado. Está sempre alerta e é uma ave cautelosa, fugindo à mínima perturbação, no entanto, no inverno pode frequentar comedouros para aves.
Apesar de ser uma ave discreta é detetado com relativa facilidade graças às suas vocalizações (ouvir aqui) que se fazem ouvir durante todo o ano.

[© Jiri Bohdal, todos os direitos reservados] – Pica-pau macho adulto.

Reprodução
Este pica-pau normalmente nidifica em árvores, mas ocasionalmente pode faze-lo em postes telefónicos. Também aceita bem caixas-ninho, mas a entrada deverá ter entre 3 e 3,5 cm de diâmetro e uma profundidade de 10 a 18 cm, pois são as características dos ninhos naturais. As primeiras paradas nupciais têm lugar a partir do final de janeiro e cria apenas uma ninhada por ano. As posturas são compostas por 4 a 6 ovos, os quais são incubados durante 11 a 12 dias. As crias tornam-se voadoras entre os 18 e os 20 dias de idade.
 
Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Catry, P., Costa, H., Elias, G., and Matias, R. (2010). Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. (Lisboa: Assírio & Alvim).
Svensson, L. (2012). Guia de Aves (2º edição). Assírio & Alvim, Porto.
http://www.iucnredlist.org/details/22681124/0
http://naturlink.sapo.pt/Natureza-e-Ambiente/Fichas-de-Especies/content/Ficha-do-Pica-pau-malhado-grande?bl=1&viewall=true#Go_1
http://www.avesdeportugal.info/denmaj.html

Floresta Autóctone: história, importância e adversidades

A floresta autóctone portuguesa surgiu como consequência de fatores como o clima e a posição geográfica. Uma floresta autóctone é uma floresta com árvores originárias de uma determinada região. Isto quer dizer que essas árvores não foram introduzidas pelo Homem, mas sim apareceram naturalmente durante o desenvolvimento destes ecossistemas.

Breve história da floresta portuguesa
Ao longo da história da Terra o clima foi mudando, alterando também a composição específica dos diferentes ecossistemas do planeta. Durante o pleistoceno contam-se inúmeros avanços e recuos dos gelos continentais (glaciações) e, por isso, o nosso território esteve coberto de florestas diferentes das atuais. Antes da última glaciação (Würm) Portugal apresentava um clima subtropical húmido e estava coberto por uma floresta de lenhosas sempre-verdes (Laurissilva), comum à que se observa nos dias de hoje nos Açores, Madeira e Canárias. A floresta Laurissilva é assim designada, pois apresenta várias espécies pertencentes à família Lauraceae, como o loureiro (Laurus nobilis e Laurus azorica), o barbuzano (Apollonias barbujana), entre outras.
Durante a última glaciação, devido às baixas temperaturas, a floresta Laurissilva praticamente desapareceu em Portugal e no resto da Europa, restando nos dias de hoje apenas algumas espécies. Estas florestas foram substituídas por uma cobertura florestal semelhante á atual taiga que circunda a parte continental norte do planeta. O pinheiro-de-casquinha (Pinus sylvestris) é disso testemunho e ainda pode ser encontrado nalgumas zonas montanhosas mais frias do país.
Com o aquecimento do clima começaram a aparecer espécies pertencentes à família das fagáceas, como os carvalhos (Quercus sp.) e o castanheiro (Castanea sativa) e outras lenhosas caducifólias (Fig. 1). Atualmente o litoral Norte do país apresenta um clima em que predomina o bioma “Floresta temperada caducifólia”, enquanto que no resto do país predomina o bioma “Floresta e matagal de esclerófilas mediterrânicas”.

Figura 1 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Nesta imagem temos um exemplo de uma floresta onde predomina o carvalho-alvarinho (Quercus robur).

A importância da floresta autóctone
A floresta autóctone tem uma importância enorme não só para a fauna, mas também para o próprio Homem. Estas amenizam o clima e regulam o ciclo da água e a sua qualidade. Têm a capacidade de conservar água e, por isso, estão muito menos suscetíveis e mais resistentes a incêndios, também são importantes na formação e qualidade dos solos. Ajudam a manter a fertilidade do espaço rural (contribuindo com matéria orgânica), o equilíbrio das paisagens e a diversidade dos recursos genéticos e proporcionam bens importantes para o Homem (Fig. 2), tais como: bens lenhosos (madeira e cortiça) e bens não-lenhosos (frutos silvestres, plantas medicinais e aromáticas, cogumelos, mel, pastoreio, caça, etc).
A fauna também beneficia destes ecossistemas, uma vez que servem de refúgio e proporcionam alimento, sendo a biodiversidade muito mais elevada do que em florestas constituídas por plantas invasoras.

Figura 2 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – As florestas autóctones disponibilizam-nos diversos bens que são importantes para as nossas vidas.

Problema das plantas invasoras
Muitas das espécies existentes em Portugal foram transportadas dos seus habitats naturais para o nosso território pelo que são denominadas de plantas exóticas. Nem todas as plantas exóticas são consideradas invasoras. Para serem consideradas como tal, normalmente, devem apresentar um crescimento rápido e/ou elevada dispersão e produção de sementes, comprometer a viabilidade e os serviços de ecossistema das espécies autóctones e não apresentarem inimigos naturais. Ou seja, são capazes de se reproduzir por sementes ou vegetativamente de uma forma exponencial sem serem controladas naturalmente. É importante reter que nem todas as plantas exóticas são invasoras e existem alguns exemplos no nosso país (como a tília (Tilia spp.), o cipreste-português (Cupressus lusitanica)) que existem em equilíbrio com a floresta natural.
No entanto, a maior parte das plantas invasoras têm um efeito extremamente negativo nos ecossistemas e até mesmo no nosso bem-estar (podem provocar doenças, por exemplo).
O eucalipto (Eucalyptus globulus) é um dos exemplos mais conhecidos. Esta espécie é responsável pela diminuição da quantidade de água dos lençóis freáticos, pois tem raízes muito profundas e consome elevadas quantidades de água. Também produz manta morta que não é degradada pelos microrganismos que estão presentes nos nossos solos. Como a decomposição é baixa forma-se uma camada de folhas que tornam os solos impermeáveis à água. Desta forma, a água escorre rapidamente provocando grandes inundações e os lençóis freáticos não são alimentados. Os eucaliptais são locais extremamente secos e as suas folhas libertam compostos voláteis inflamáveis, que servem de combustível a grandes incêndios florestais. Ao contrário dos eucaliptais as florestas autóctones diminuem a possibilidade de cheias e de incêndios florestais.
Outras plantas como algumas espécies pertencentes ao género Acacia têm uma produção e dispersão de sementes bastante elevada, resultando em povoamentos florestais extremamente densos, que impossibilitam o crescimento de plantas autóctones.
A nível europeu estima-se que as perdas a nível económico sejam próximas de 10 biliões €/ano. As espécies invasoras são um dos maiores problemas que enfrentamos, não só a nível ambiental mas também a nível económico.

Adversidades enfrentadas pela floresta autóctone portuguesa
A desflorestação, os incêndios e as plantas exóticas são os principais fatores que ameaçam estas florestas. Desde muito cedo que o Homem tem vindo a destruir estes ecossistemas, pelo menos desde os descobrimentos, altura em que se desflorestou grandes áreas de carvalhos para a construção de embarcações. Para cada nau eram necessários entre 2 mil e 4 mil árvores e no total derrubaram-se mais de 5 milhões de carvalhos. Foi assim que se desflorestou grande parte do país, tendo desaparecido muitos dos carvalhais repletos de biodiversidade.
Mais tarde, principalmente no início do século XX, nos locais onde estas florestas existiam foram plantados pinheiros-bravos (Pinus pinaster), que agora têm sido substituídos pelo eucalipto, parecendo não haver espaço para as plantas autóctones.
Este recurso único tem um grande potencial no nosso país e uma vez aproveitado poderia proporcionar um alto desenvolvimento socioeconómico e bem-estar. Por este motivo uma gestão e uma conservação adequadas são de extrema importância, de forma a garantir a manutenção e equilíbrio da biodiversidade (Fig. 3). No entanto, parece que ainda não encontrou o seu lugar nesta sociedade que vive apenas de números.

Figura 3 [© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Os ecossistema ripícolas são importantes para a qualidade de diversos serviços de ecossistema.

Referências
Paiva, J. A Biodiversidade e a história da Floresta Portuguesa. Centro de Ecologia Funcional. Universidade de Coimbra
http://www.florestacomum.org/floresta-autoctone/historia-da-floresta-portuguesa/
http://invasoras.pt/o-que-sao/
http://www.florestar.net/invasoras/invasoras2.html

Frango-d’água (Rallus aquaticus)

O frango-d’água (Rallus aquaticus) é uma das espécies mais discretas e de difícil observação da nossa avifauna. São raras as vezes que se mostram, mas é possível ouvir as suas vocalizações que lembram um suíno.

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Frango-d’água adulto.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Gruiformes
Família: Rallidae
Género: Rallus
Espécie: Rallus aquaticus

Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Pouco preocupante” (LC). Apesar de mundialmente estar classificado também como “Pouco preocupante”, aparentemente a pulação está a diminuir.
Distribui-se por toda a Europa, embora não exista nas zonas de maior altitude e nas zonas mais frias, Ásia e Norte de África. Também está presente na Islândia. Em Portugal o frango-d’água ocorre de Norte a Sul (distribuição que no litoral é alargada e no interior muito descontínua), embora seja rara em Trás-os-Montes e na Beira Interior devido à falta de habitat. Os pauis do Baixo Mondego, os estuários do Sado e do Tejo e a lagoa de Santo André são as principais áreas de ocorrência (pode ver o mapa de distribuição aqui).
O frango-d’água é uma ave típica de zonas húmidas, como lagoas, açudes, pauis, estuários, rios, ribeiras, arrozais em pousio, valas, canais e salinas abandonadas. É uma espécie extremamente discreta e muito difícil de observar, portanto a existência de vegetação densa e bem desenvolvida nestes habitats é extremamente importante (por exemplo, caniçais, sapais ou salgueirais).
É fundamentalmente residente no nosso país, no entanto, existe um fluxo significativo de indivíduos migratórios provenientes doutras partes da Europa. É uma ave de hábitos diurnos, que se alimenta caminhado em zonas de água pouca profunda ou cobertas de lama e mais raramente enquanto nada.
Em Portugal ocorre a subespécie nominal (Rallus aquaticus aquaticus).
Alimentação: omnívoro, embora ingira alimento de origem animal em maior quantidade, sobretudo invertebrados aquáticos.

Morfologia Externa e Identificação
Comprimento: entre 23 – 26 cm.
O frango-d’água é uma ave relativamente pequena, com a parte traseira arredondada, pescoço um pouco comprido e bico longo, estreito e ligeiramente curvado. Possui as partes superiores castanho-azeitona malhadas de preto, face e peito cinzento-azulado e flancos e abdómen listrados de preto e branco. O bico é vermelho com o cúlmen e a ponta mais escuros, as patas são alaranjadas e a íris é avermelhada. Os juvenis são todos acastanhados, sem o cinzento-azulado (ver no primeiro vídeo).
É característico da espécie movimentar-se cautelosamente e a seguir rapidamente. Voa pequena distâncias, com batimento d asas muito rápidos e patas pendidas. Mantém frequentemente a cauda curta levantada, semelhante à carriça (Troglodytes troglodytes).
É muito difícil de observar o frango-d’água, mas é comum ouvi-lo. Pode ouvir as vocalizações aqui.

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Frango-d’água adulto.

Reprodução
Por ser uma espécie tão furtiva nada se conhece sobre a reprodução em Portugal. Estudos realizados noutros países europeus mostram que estas aves são extremamente territoriais, têm uma época de reprodução prolongada e podem criar 2 ninhadas num só ano. Os ninhos são bem escondidos na vegetação densa e as posturas compreendem normalmente 6 a 11 ovos. A incubação dura de 19 a 22 dias.

Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Catry, P., Costa, H., Elias, G., and Matias, R. (2010). Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. (Lisboa: Assírio & Alvim).
Svensson, L. (2012). Guia de Aves (2º edição). Assírio & Alvim, Porto.
http://www.avesdeportugal.info/ralaqu.html
http://www.iucnredlist.org/details/full/22725141/0

Castor-europeu (Castor fiber)

Sabe-se hoje, sem qualquer dúvida, que o castor-europeu (Castor fiber) existiu em Portugal. As provas resumem-se á toponímia e aos restos de fósseis encontrados em escavações arqueológicas, no entanto, a sua distribuição e data de extinção são menos claras.

Fig. 1 [© Jiri Bohdal, todos os direitos reservados] –  Castor-europeu.

Distribuição Mundial
O castor-europeu (Fig. 1) já esteve amplamente distribuído na Europa e na Ásia, no entanto, no início do século XX a caça excessiva e a drástica destruição de habitat conduziu a uma diminuição assustadora da sua área de distribuição e do número de indivíduos.
Atualmente na Europa apenas se encontram em alguns locais isolados: em certas partes de Ródano (França) e Elbe (Alemanha), no Sul da Noruega, no rio Neman, na bacia do rio Dnieper (Bielorrússia) e em Voronezh (Russia). Foram feitas reintroduções em vários países (ver aqui cor roxa do mapa) que com as apropriadas políticas de gestão e conservação estão a ser bem-sucedidas, notando-se uma expansão rápida destas populações.
Na Península Ibérica o castor-europeu chegou a estar extinto, mas em 2003 foi reintroduzido em Espanha de forma clandestina por um grupo de ativistas.
Está classificado como “Pouco Preocupante” pela IUCN Red list, uma vez que a espécie está a recuperar bem na grande parte da sua extensão de ocorrência.

Ecologia e Identificação
O castor-europeu mede entre 103 e 128 cm, característica que lhe confere o estatuto de maior roedor Europeu. Possui uma cauda larga, horizontalmente achatada e escamosa e os dentes incisivos são grandes e amarelados. A cor do pelo varia um pouco (as formas do Norte são mais escuras do que as do Sul), desde castanho-amarelado a quase preto, mas a tonalidade mais vulgar é a castanho-avermelhado. As patas posteriores estão providas de membranas interdigitais natatórias, tornando o castor um excelente nadador.
Habita preferencialmente vales de cursos de água largos com vegetação arbórea. Quando propício, constrói os ninhos em tocas, caso contrário constrói ninhos que consistem num amontoado de ramos com acessos aquáticos, ficando acima do nível da água. Para manter o nível da água adequado, os castores constroem um elaborado sistema de canais e diques com paus, ramos de árvores e lama, estruturas que podem ter até 50m de cumprimento. Para estas construções têm de cortar várias árvores, que podem ter um diâmetro bastante considerável (Fig. 2)
É sobretudo noturno, mas o pico de atividade é ao fim da tarde quando não há perturbação. Armazenam o alimento nos diques de forma a mante-lo fresco, para que todos os elementos do grupo se possam alimentar durante vários dias. Estes grupos sociais são normalmente constituídos por 5 ou 6 castores: casal adulto, juvenis com 1 ano do verão anterior e juvenis nascidos no presente verão. O castor-europeu é monogâmico e os juvenis permanecem 2 anos no local de nascimento.
Os acasalamentos ocorrem em fevereiro e os nascimentos em junho. A longevidade em estado selvagem é de 7 a 8 anos, mas ocasionalmente podem chegar aos 25 anos.
A dieta é bastante diversificada, consumindo frutos, ervas, insectos e carne.
Durante a primavera e verão alimenta-se de ervas, folhas e ramos de plantas herbáceas e no outono e inverno alimenta-se de arbustos, ramos e cascas de árvores.

Fig. 1 [© Jiri Bohdal, todos os direitos reservados] – Árvore cortada por um castor.

Distribuição histórica e extinção em Portugal
Atualmente não restam dúvidas de que o castor-europeu existiu em Portugal, provas disto são as toponímias e os vários fósseis encontrados. Outras espécies já existiram em Portugal durante o Mioceno, mas nenhuma parece ter sido abundante.
O castor-europeu não aparenta ter sido uma espécie muito comum durante toda a sua história e a perseguição por parte do Homem piorou ainda mais a sua situação. As peles eram consideradas de luxo e a carne era também muito apreciada. Era usado na medicina como antiespasmódico, ou como afrodisíaco e os óleos produzidos eram usados na perfumaria. Por estas razões a espécie acabou por se extinguir por volta do século XV.
Em Portugal distribuía-se principalmente a norte do rio Tejo (nas principais bacias hidrográficas), em locais com condições climáticas não excessivamente quentes, com fornecimento de águas fluviais permanentes e com pluviosidade superior a 800mm por ano.
O regresso do castor a Portugal é pouco provável uma vez que não existem condições para o reintroduzir. Ter-se-ia que reflorestar vastas áreas com plantas autóctones, de forma a fornecer o habitat e o alimento necessário para a espécie prosperar.

Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Antunes, M.T. (1989). Castor fiber na gruta do Caldeirão. Existência, distribuição e extinção do castor em Portugal.

http://www.iucnredlist.org/details/4007/0

A magia do Outono

Com o Outono chega a chuva. Os dias mais húmidos e menos quentes  resultam no desabrochar  destes curiosos organismos. Curiosos no sentido de alguns serem comestíveis, outros mortais e ainda outros medicinais, mas no fim tudo se resume à sua grande diversidade e beleza.  Penso que o Outono não seria a mesma coisa sem os cogumelos, tal como não seria a mesma coisa sem as folhas multicor caídas no chão.

Photograph The beauty of Autumn by Daniel Santos on 500px

[© Daniel Santos, todos os direitos reservados] – Melhor qualidade e detalhes da fotografia aqui.

Garça-branca-pequena (Egretta garzetta)

A garça-branca-pequena (Egretta garzetta) é bastante comum em Portugal, principalmente a sul do rio Vouga. Ocorrem especialmente em zonas húmidas onde podem ser vistas a alimentarem-se, ou a descansarem formando grandes colónias.

[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Garça adulta.

Taxonomia
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Pelecaniformes
Família: Ardeidae
Género: Egretta
Espécie: Egretta garzetta

Distribuição e Ecologia
Estatuto de conservação em Portugal: “Pouco preocupante” (LC).
A garça-branca-pequena está presente na Europa, África, Ásia e Austrália. Nos anos 50 foi pela primeira vez observada no “Novo Mundo”, mostrando desde então evidências de colonização do continente americano. Em Portugal, ocorre por todo o território, mas apresenta variações de abundância consoante regiões. É mais comum ao longo do litoral a sul do rio Vouga e mais escassa a norte deste. No interior é rara a norte do rio Tejo, mas comum a sul do mesmo (embora no litoral seja mais comum). A população nidificante encontra-se principalmente a sul do rio Tejo e é composta por mais de 2 mil casais, que constituem cerca de 40 colónias (ver mapa
aqui).
Frequenta habitats aquáticos, tais como estuários, rias, pauis, lagoas costeiras, arrozais, salinas, rios, ribeiras, entre outros. No entanto, os arrozais são um dos biótopos de maior preferência ao longo de todo o ano para esta espécie.Uma parte da população nidificante da Península Ibérica efetua movimentos migratórios, sendo que o pico de maior abundância depende da zona em questão (normalmente entre março e setembro).
É típico os indivíduos desta espécie alimentarem-se isoladamente, parecendo defenderem locais de alimentação bem definidos. Tal como muitas outras aves a garça-branca-pequena forma dormitórios sobretudo durante o inverno, localizados fora dos locais de reprodução, partilhando-os com outros ardeídeos (em especial com a garça-boieira (Bulbucus ibis)). Estes dormitórios são normalmente instalados em árvores ou arbustos de zonas húmidas.
De hábitos diurnos, a garça-branca-pequena pode ser vista durante o dia a alimentar-se em zonas húmidas. Para aceder às áreas de alimentação podem-se deslocar vários quilómetros por dia.
Em Portugal ocorre a subespécie nominal (Egretta garzetta garzetta).
Alimentação: essencialmente peixes, anfíbios e invertebrados. A preferência por cada tipo de alimento varia de local para local.

Morfologia Externa e Identificação
Comprimento: entre 55 – 65 cm.
Envergadura: entre 88 – 106 cm.
A garça-branca-pequena é uma garça de dimensão média, esguia e elegante, com um pescoço comprido em forma de “S”. Uma característica única entre as garças do Paleártico Ocidental são as patas negras e os dedos amarelo-vivos de contraste intenso. O bico é preto e os loros são cinzentos-azulados durante a maior parte do ano e lilases durante a corte. A plumagem é toda ela branca e quando na época de reprodução, apresenta na nuca duas penas alongadas (ver no vídeo).
Pode ouvir as vocalizações da garça-branca-pequena aqui.


[© Armando Caldas, todos os direitos reservados] – Garça adulta.

Reprodução
Formam colónias, muitas vezes com várias centenas de casais e constroem os ninhos em árvores, falésias e rochedos. A época de reprodução desta espécie é bastante prolongada, uma vez que os primeiros ninhos podem começar a ser construídos em Fevereiro e ainda se observam crias até ao início de Setembro. As posturas (constituídas por 2 a 6 ovos) podem ser feitas desde a primeira semana de Março a Junho.
 
Referências
Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand, A.N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queirós, A.I., Rogado, L., and Santos-Reis, M. (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. (Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa).
Catry, P., Costa, H., Elias, G., and Matias, R. (2010). Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. (Lisboa: Assírio & Alvim).
Svensson, L. (2012). Guia de Aves (2º edição). Assírio & Alvim, Porto.
http://www.avesdeportugal.info/egrgar.html
http://www.iucnredlist.org/details/62774969/0

A Vida Selvagem Nacional

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